A Morte do Ideal

No dia 07/03/07, em Capitão America #25 (lançado no Brasil em Fevereiro de 2008 na edição 49 de “Os Novos Vingadores”), o veterano Steve Rogers acaba sofrendo um atentado as vésperas de ser levado ao tribunal de Nova York, onde responderia por crimes contra a nação depois de liderar uma milícia rebelde de mascarados uniformizados, contraria ao registro de indivíduos superpoderosos pelo governo dos EUA.

Mais do que a sua morte e a incontrolável vendagem que ela proporcionou, o Capitão América acaba deixando muito mais do que o saudosismo dos fãs. Falar desse grande personagem é também entender o que acontece no âmago ideológico do país mais poderoso do mundo.

Quando criado em 1941, por Joe Simon e Jack Kirby, a formula era bem clara e simples: Demonstrar a todo o povo estadunidense pós-Grande Depressão que, mesmo sendo vitimas de tantos problemas caóticos, era preciso defender os ideais da Liberdade,Verdade e Justiça. Temos nas mãos de um garoto nobre e patriota um poderoso símbolo de união nacional, o que ajuda a fomentar um futuro promissor que só pode ser conquistado com a revalorização do espírito nacional e a vitória perante os inimigos do povo deste país. Após a guerra, acaba por ser maltratado e esquecido durante a década seguinte, apenas sofrendo uma revitalização em meio ao BUM dos Super Heróis acontecido na década de 60, sendo naquele momento a arma de solidificação do poderoso império que os Estados Unidos se tornaram. Desta vez, os soviéticos e nazistas foragidos são o alvo do herói, que em cada vitória leva a todos os povos do mundo, a mensagem de que a América tem de volta o seu maior herói.

As Injustiças sociais e o imenso desconforto perante um governo corrupto, fazem na década de 70 com que Steve Rogers repense sobre seu papel perante o estado. Isso ocasiona mudanças marcantes na vida do herói. Primeiramente renega o uniforme e acaba tornando-se          ”O Nômade”, para mais tarde retornar ao seu legado com a mente definida e continuar defendendo o seu país a partir dos valores primordiais que forjaram a sua vida, mesmo que seu governo tenha esquecido deles, ou talvez nunca os tenha defendido verdadeiramente. Nesta época, o herói segue as tendências das diversas mudanças  ocorridas na população americana. Diferente das décadas seguintes, o símbolo acaba se tornando o espelho dos apelos populares e da confusão perante as deturpações dos ideais nacionais. Ter renegado seu legado e acabar por conhecer as diferenças culturais da nação, acaba por mostrar uma nova noção de patriotismo; que não é necessariamente ser conivente com deturpações dos valores americanos ao simples motivo do que melhor convir aos seus governantes. Com isso, o personagem torna-se um contestador poderoso, que pelo seu passado heróico e servil não passa despercebido pelos ouvidos da nação, levando muitas pessoas a perceber o quanto distorcida o país estava.

Nos anos que se seguem, as coisas complicam de forma ao governo americano questionar ao seu maior símbolo a autoridade de usar a sua bandeira por sua própria conta. Pois, para todos aqueles que governam, deve existir por parte dos que usam suas insígnias um fator de lealdade cego e obediente. A negação dessa obediência ocasiona o abandono. Com isso, na década de 80, Steve Rogers acaba por entregar seu uniforme, tornando-se um soldado autônomo lutando pelo que acredita: O Capitão. Porem, o Capitão América ainda deve existir.

E nesses anos sombrios e decadentes, o jovem John Walker é escolhido para ser o reflexo dos Estados Unidos daquele momento: Alguém com grande força, poderoso extremismo e suprema violência. Um soldado altamente fiel as ordens, que não precisa justificar seus meios de realização das tarefas. Um jovem que, assim como todos de sua época, é na verdade uma alma vazia e desorientada que precisava entender antes dos valores nacionais, o seu valor humano em meio as situações de decadência da sociedade de sua geração. Vivendo em meio a poderosas duvidas e incertezas, Walker acaba por confrontar o seu predecessor, apenas para ao final desistir de algo ao qual sempre soube ser maior do que ele mesmo poderia ser.

Retomando seu posto de forma a ajudar os Estados Unidos a se reerguerem novamente, o Capitão América nos anos 90 volta a responder ao seu governo, porem sendo muitas vezes contestador de atitudes e fatos que deturpam os valores aos quais fora moldado. Tendo agora um reconhecimento e respeito maior do que nos outros anos, é usado como embaixador da sua nação, o que lhe ocasiona o maior entendimento do que o seu país representa a todos, de forma positiva e principalmente das negativas. Sendo agora amplamente questionado pelos atos que a sua nação faz a outros povos, muitas vezes pela defesa do chamado “American Way Of Life”, o “soldado da liberdade” não é mais uma arma americana de poder e temor. Pelo contrario, agora o herói é na verdade um espelho claro e limpo de tudo aquilo que os Estados Unidos pregaram dos seus próprios ideais, mas que nunca se tornaram. Um obsoleto e desiludido personagem que mesmo após se tornar a melhor forma da busca pela “verdade” para com seus próprios semelhantes, acaba por implodir na sociedade a que pertence.

Te-lo deitado nas escadarias com vários tiros em seu peito, é como perceber o quanto sua busca e missão não importam mais. Ou na verdade, não são necessárias agora. Quando o terror engrena as mentes de toda uma sociedade, ilude seus direitos por uma ilusória questão de sobrevivência, e acaba esquecendo que pode estar vendendo barato aquilo a que tanto custo foi conquistado. Sobre o herói, é possível que como todos aqueles oriundos das paginas de quadrinhos ele retorne um dia. Mas, seu retorno com certeza só será orquestrado, quando algo muito importante estiver muito mais perto de ser perdido.

Para saber mais, a RV Quadrinhos recomenda:

Biblioteca Histórica Marvel: Capitão América 1 (Panini Comics)

Edição especial

Formato americano

Papel couchê

Os Maiores Clássicos do Capitão América 1 (Panini Comics)

Formato americano

Papel LWC

Capitão América 149 a 161 (Editora Abril)

Formatinho

Capa Mole

Capitão America 209 – 214, Marvel 97 01, 02, 04 – 10, Marvel 98 02-09, Marvel 2000 01 – 07

Formatinho

Capa Mole

Novos Vingadores 25 – 57 (em andamento)

Revista mensal

Formato americano

108 páginas

Papel Pisa-brite

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