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Vestígios

Milena Ferreira
24/08/2022 a 22/10/2022


Release

A partir de 24 de agosto, a  RV Cultura e Arte apresenta Vestígios, exposição individual da artista baiana Milena Ferreira, com texto de Galciani Neves.

A exposição, primeira individual da artista, apresenta obras inéditas nas quais Milena parte de uma espécie de pesquisa arqueológica centrada nas casas em que viveu e nas ruínas da região do centro histórico de Salvador para construir imagens que ativam narrativas entre o presente e o passado, convocando memórias afetivas, enquanto discutem, entre outros assuntos, questões relacionadas à materialidade e temporalidade.

“Os trabalhos selecionados para a mostra nos convidam a imaginar e tramar elos e relações entre o que compreendemos e experimentamos como patrimônio, memória e rastros, a partir de uma experiência que pulsa e se enraíza naquilo que chamamos de casa, de morada, de lar. Assim, a casa, a ruína da casa, aquilo que é, que sobra e que resiste no tempo se tornam território de experimentação poética de Milena. A artista convive com as marcas, com as texturas de tempo, com descartes materiais, que se refazem afetiva e visualmente em seus trabalhos. E assim, os traduz ora como outras narrativas, ora como rastros, ora como novos ordenamentos. Num país como o Brasil, em que a moradia ainda é um privilégio para poucas pessoas, Milena chama a um debate sobre o que é ter teto, o que é construir subjetividades em um terreno de acolhimento, o que é deixar memória por entre cômodos", analisa a crítica e curadora Galciani Neves.

No projeto, Milena também avança sua pesquisa plástica iniciada em 2019 com experimentos gráficos em torno da gravura, especialmente com matrizes em metal e embalagens de Tetra Pak, e que agora inclui trabalhos em desenho, colagem, pintura e escultura, explorando ainda o uso de suportes e materiais coletados. Na série “Vestígios” que empresta título a exposição, por exemplo, Milena cria um conjunto de objetos em cimento a partir de material de descarte das demolições irregulares promovidas na Comunidade do Tororó. Já em “Habitar é obra”, a artista sugere uma composição coletiva em acrílica sobre azulejo, na qual convida pessoas a olhar para dentro de suas próprias casas e descobrir relações plásticas entre si e o lugar que habitam.

“A estética da ruína sempre esteve presente nos meus trabalhos, principalmente como lugar de memória. A partir dessa ideia, fiz algumas coletas pela cidade, em locais que foram abandonados e/ou demolidos, dirigindo um olhar atento sobretudo aos pequenos elementos que compõem o cotidiano desses espaços. Sinais e objetos deixados ali são vestígios das particularidades narrativas dessas estruturas, tanto no campo material quanto no campo simbólico, e falam sobre a relação de transformação constante entre o indivíduo e local que habita: onde imprimimos nossa marca, integramos coisas, relacionamos elementos e vamos nos construindo”, comenta a artista.

Vestígios pode ser visitada até 08 de outubro de 2022 presencialmente na RV Cultura e Arte - de segunda a sexta, das 10:00 às 18:00 e aos sábados das 10:00 às 14:00; e de forma online, pelo site da galeria (www.rvculturaearte.com).


Texto crítico

(Breves contratempos junto à mostra de Milena Ferreira)

I.

“O mundo bate do outro lado de minha porta”. Este é um dos pequenos versos que inicia um texto que narra o sentido da cabana. Um autor europeu, desses muito sensíveis, cá até bem admirado, versa sobre a casa, o ninho, o sótão (?), a imensidão íntima. Como ele cita suavemente este outro autor, como o verso passeia delicadamente entre suas palavras... A calmaria é interrompida pois é impossível não nos depararmos com mais um dos nossos não raros e tão habituais dilemas: como situar suas tão belas palavras que aqui nos soam tão incompatíveis?

II.

“É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela”. Uma frase escrita no diário dela. Dizem que até mudaram o título do livro. Não era assim que ela desejava que seus escritos figurassem. Saindo do leito para escrever, constatava onde estava e ali mesmo seguia a imaginar como uma forma de resistir. Quem pensava que poderia ler suas linhas? Dessa necessidade – pois “É preciso”, como ela própria escreveu – a casa se deixava ver. E essa visão é irrompida pela escrita e por um sonho de que ali seria um dia então um outro lugar.

III.

“Pela moradia digna. Chega de despejo” é carregada por uma multidão. 33 milhões de brasileiros não têm onde morar e se encontram no mesmo país onde há mais de 6 milhões de imóveis vazios. No centro da luta do MTST (Movimento dos trabalhadores sem teto) está a demanda por uma reforma urbana que objetiva democratizar o território das cidades. Tornou-se fácil nos perder por entre esses gritos de lutas. Entoá-los em redes sociais significa dever cumprido.

Há muitos avessos nessas palavras e nos contextos por onde circulam. Basta pronunciá-las e no mesmo instante explodem arritmias, desafetos, incongruências, virar de costas. Adentrando essas dissonâncias, que são assim como tudo que nos compõem, podemos nos aproximar do trabalho de Milena Ferreira. Entre o poético e o político, seu pensamento localizado afina-se e brota de narrativas sobre as tantas vezes que foi de uma casa para outra, que viu ruínas, que enxergou o desleixo público com a cidade e a voracidade da especulação imobiliária.

Em Salvador, na ilha, com a família, no Centro, de volta à família. E não só as casas carregava em seu corpo, também os pós, tempos guardados e vividos, gestos de outrem, de quem passou e não está mais, um tanto de aindas se esmaecendo por entre as frestas. Guardou quase tudo e criou vestígios. O curioso é que, para lidar com estes traços de tempo, Milena não encarou o que os sucedeu. Vestígios, em sua poética, é coisa enquanto coisa mesmo, é segue sendo, um gerúndio de coisa viva. Pois a artista investe em desenhos, colagens, gravuras, composições instalativas, tramando elos e relações entre o que compreendemos e experimentamos como patrimônio, memória e rastros, a partir de uma experiência que pulsa e se enraíza naquilo que chamamos de casa, de morada, de lar. Quem dera todes soubéssemos o que é ter casa, morada, lar? A artista também questiona isso em suas deambulações de linguagem.

Voltando ao primeiro autor e sua revelação: o espaço habitado – ele grifa, qualquer que seja ele – é um “não-eu que protege o eu”. Para quem sempre teve onde morar, “qualquer” é uma qualidade fácil de ser atribuída. Nos trabalhos de Milena, o “qualquer” aponta, ao contrário, para uma essência da noção de casa, que surge nas pinturas sobre azulejos, como pequenos territórios avistados de perto. São vistos, assim, como arranjos ou gambiarras que se dão na casa quando esta ganha textura dos corpos que ali se encontram. Ou como diz a artista acerca do trabalho Habitar é obra: “sobreposições de itens do nosso dia a dia que reforçam a ideia de habitar esse local/espaço que chamamos de casa. Essas pequenas obras do cotidiano são resultado da relação plástica que existe entre o sujeito e o local que ele habita: objetos afetivos, uma bagunça momentânea (ou não), manias, sobreposições de itens do nosso dia a dia”.

A casa também pode ser lugar de apagamento. A tinta fresca cobre os desenhos das crianças, a marca dos móveis e das enchentes, disfarça as poeiras. Em Textura é sentimento, Milena percebe as camadas de tinta, quase como uma arqueologia das paredes. Ela junta e faz arranjos de rebocos, tintas descascadas e camadas de pintura. Na fragilidade desses fragmentos, a artista encontra composições cromáticas, que se assemelham a mapas, territórios afronteirados e sobrepostos. Na série Vestígios, materiais e descartes de demolições, provenientes da Comunidade do Tororó, se reconstituem em instalações precárias e ao mesmo tempo que parecem resistir ao tempo. Para Milena, este trabalho “retoma um lugar de afeto/histórico como um objeto-relíquia, que agregado ao tempo, “salva” a memória do lugar”. Esta série ganha desdobramentos na série Despejo, na qual, com giz pastel seco, a artista reencena composições de objetos e resíduos de casa que se apertavam em caixas de papelão. Nessas composições, o ordinário do cotidiano parece tornar-se ainda mais comum, descartável, em desuso. Interessada também em lugares invisibilizados, onde a memória insiste em permanecer a despeito de seus manipuladores, Milena realiza uma série de monotipias sobre embalagens de cimento. Casarões de Salvador são retratados em Canteiro. O passado se presentifica em todas as suas fases e temporalidades. Em Restaram as borboletas e eu, a artista faz um inventário de objetos pessoais com os quais conviveu na casa dos seus avós.

Nestes trabalhos que compõem a mostra Vestígios, a ruína dos territórios que se constituem na casa ou como casa são matéria fundamental. A artista convive com as marcas, com as texturas de tempo, com descartes materiais e os refaz afetiva e visualmente. E assim, os traduz ora como narrativas plásticas, ora como rastros, ora como novos ordenamentos. Num país como o Brasil, em que a moradia ainda é um privilégio para poucas pessoas, Milena chama a um debate sobre o que é ter teto, o que é construir subjetividades em um terreno de acolhimento, o que é deixar e ser memória por entre cômodos.

Galciani Neves
(agosto/2022)




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