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Platibandas



Vestígio, memória e evocação na série de Mari Ra.


Palimpsesto e pátina estão intimamente relacionados à memória e à passagem do tempo. Palimpsesto refere-se a pergaminhos que eram raspados e polidos para assim receberem novas inscrições, sobretudo durante a Idade Média. A metáfora de uma sobreposição de escritas, com os seus inevitáveis vestígios, foi transposta para o contexto urbano para se referir ao acúmulo de camadas de épocas distintas, de modo que, ao se escavar uma cidade colonial como Salvador, Olinda ou Recife, é possível descobrir quais foram alguns dos usos, texturas e pavimentos que já compuseram determinado pedaço de cidade.

Pátina, por sua vez, refere-se a uma camada que recobre algo: sejam os lentos processos químicos que dotam o bronze de um tom esverdeado, ou a oxidação que resulta na ferrugem. O termo, aos poucos, foi ganhando um sentido mais amplo, ao incluir mobiliários e trabalhos de pintura com suas camadas, velaturas e outros índices da passagem do tempo. Existe, portanto, a pátina que é fruto do próprio tempo e a pátina que evoca ou simula um aspecto de ação do tempo.

Palimpsesto e pátina remetem, portanto, a acúmulos e vestígios que dotam um objeto ou a cidade de vida, de densidade histórica.

É com essa breve introdução que abordo as “Platibandas”, uma série de pinturas de Mari Ra que surgiu em 2018 ante o interesse da artista por um certo tipo de fachada, fachadas impregnadas de cor, geometria e lirismo que ela inicialmente encontrou em Recife e Olinda, quando ia visitar sua mãe, e que ela também reconheceu na Zona Leste, um dos lugares onde ela residiu em São Paulo. As fachadas em questão possuem uma planaridade marcante por contarem com platibandas, que costumam ser uma faixa horizontal que emoldura a parte superior da fachada, cuja finalidade é esconder o telhado das construções. Este elemento arquitetônico foi difundido pela Missão Artística Francesa, em 1816, e ganhou caráter compulsório em Salvador com o decreto da Lei da Bica, de 1850, cujo intuito era impedir que as águas pluviais das coberturas das casas caíssem na frente das casas, o que comprometia as calçadas e os seus transeuntes.

Com as platibandas, as fachadas de algum modo se destacam e ganham autonomia e importância em relação ao restante da edificação, e seus elementos e ornamentos podem ser atualizados, de modo que estilos e tendências vão se encobrindo pelos seus sucessores: o neoclássico propagado pelos franceses, os subsequentes eclético, art déco, neocolonial, além do próprio repertório modernismo brasileiro no século XX.

As fachadas que fascinavam Mari Ra ela passou a encontrar também em outros lugares por onde habitou ou transitou, como em Salvador e no Recôncavo Baiano, em Belém do Pará e outros lugares que receberam os afluxos da diáspora nordestina, sobretudo o dos anos 1950 e 1960, quando nordestinos de diversos estados se deslocaram para São Paulo, a capital industrial do país, carregando consigo modos de existência e formas de construir, além de serem responsáveis por erguer partes significativas das grandes cidades brasileiras.

Da mais pulsante vontade de diferenciação, segundo as quais as camadas populares deglutiram o moderno e os símbolos visuais ao seu redor, é que surge esse léxico inesgotável e vivo de fachadas que podem mudar de cor e composição a cada nova demão. E são essas fachadas que Mari Ra reelabora para o seu assunto preferido: a pintura.

Pela amplitude, frequência, intensidade, complexidade, vigor e resistência, estas fachadas são um patrimônio da cultura popular brasileira: mecanismo espontâneo de sobrevivência cultural adaptativa, mescla de tradições e aspirações, criam arquitetura doméstica, espaço cênico e paisagem urbana. Os novos padrões introduzidos pelo progresso necessário são assimilados e utilizados enquanto persistem aspectos absorvidos de estilos tradicionais, ao sabor da vontade dos mestres-pedreiros e dos moradores, exibindo a visível atemporalidade das realizações. (Anna Mariani, "Pinturas e platibandas", 1987).

A fachada de uma casa é um portal que separa o íntimo do público. Ao mesmo tempo é a forma como uma família deseja ser vista, e é também a sua contribuição para a construção de uma paisagem urbana. Pelo fato de uma fachada também possuir a acepção de “mera aparência”, decorre a expressão “isso é só fachada” quando alguém se comporta de um jeito melhor e muito distinto do que costuma ser. Fachada é, para o bem e para o mal, a melhor versão de algo ou de alguém.

A série “Platibandas” hoje conta com cerca de 20 trabalhos, tendo a primeira obra adotado a madeira como suporte, destacando um detalhe da silhueta das fachadas. Os trabalhos subsequentes da série já migraram para a tela como suporte, que Mari recobre com uma base de tinta amarela vibrante. À medida que a tinta a óleo vai se somando por meio de velaturas, a artista também lixa a pintura, recuperando camadas anteriores. Esse procedimento de pintar, remover e pintar por cima resulta em uma fatura heterogênea e desgastada, que invoca a passagem do tempo e a memória.

Assim, suas platibandas flutuam absolutas no espaço configurado pela própria parede em que se situam os trabalhos, o que traz uma dimensão metalinguística, uma espécie de parede da memória com retratos não de pessoas, mas de suas moradas inventadas, inspiradas em cidades variadas. Mari reinventa as cores em prol da pintura, propondo contrastes por oposições bem demarcadas de cor, emprestando uma nova cor ao que antes seria o céu, e uma nova textura, ao inserir à tinta a óleo um médium de cera de abelha.

As “Platibandas” de Mari Ra contam com um dado mais projetual do que os demais trabalhos da artista. Se suas demais criações costumam ser concebidas primeiramente em aquarela para depois se tornarem pinturas em maiores formatos, as suas fachadas são diminutas e advém de um esquema, quase como se fossem o estudo para detalhes, relevos e recortes a serem construídos em dimensão real.

Os elementos arquitetônicos que Mari elabora em suas pinturas atuam, assim, como sistemas de vestígio e evocação de memória, lidando não apenas com a tradição canônica da arte e arquitetura, mas sobretudo com a sua deglutição pelo popular, tornando assunto para a pintura o mundo sensível ao redor.

Diego Mauro



Barra funda
série Platibandas
MARI RA

óleo e cera de abelha sobre tela
30x20cm
2023


Garcia
série Platibandas
MARI RA

óleo e cera de abelha sobre tela
30x20cm
2023


IX
série Platibandas
MARI RA

óleo e cera de abelha sobre tela
30x20cm
2023


X
série Platibandas
MARI RA

óleo e cera de abelha sobre tela
30x20cm
2023


XI
série Platibandas
MARI RA

óleo e cera de abelha sobre tela
30x20cm
2023


XII
série Platibandas
MARI RA

óleo e cera de abelha sobre tela
30x20cm
2023


XIII
série Platibandas
MARI RA

óleo e cera de abelha sobre tela
30x20cm
2023

XIV
série Platibandas
MARI RA

óleo e cera de abelha sobre tela
30x20cm
2023



Mari Ra (Cotia, 1996) se vale da pintura para criar micronarrativas que renegociam repertórios formais e códigos visuais conhecidos em um sintetismo pictórico próprio. A partir do estudo de determinados elementos — que podem ir do corpo humano, de fantasias populares e de objetos cotidianos até a paisagem e a arquitetura — suas obras cruzam geometria e livre imaginação, transfigurando grandes massas de cor e jogos de forma e contraforma em composições visualmente magnéticas, ora mais sugestivas, ora mais abstratas.

Projetos selecionados incluem participações em mostras coletivas como “Contra-flecha”, na Galeria Almeida & Dale (2023) e “ 17 Abre Alas”, na Gentil Carioca (2022); presença em salões nacionais como o 46° SARP - Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional-Contemporâneo, no MARP (2021) e o 17° Salão Ubatuba de Artes Visuais (2021); além de residências artísticas no programa L.O.T.E. da Unesp (2017 e 2018).

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