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A noção de colapso pode ser entendida como a perda de algo, seja no aspecto figurado, seja no patológico. Ao apropriar-se de uma palavra da mecânica quântica, o artista

Igor Souza

se vale do seu uso separado, encontrando nas brechas que surgem do afastamento do termo modos de compartilhar outros saberes e formulações. Entre a primeira sílaba da palavra e o restante de sua composição, a inserção de um hiato transforma sua aparência e significados. Na mesma perspectiva, a produção mais recente do artista é concebida, justamente, das frestas que se compõem a partir dessas tramas.

Ao separar lapso, Souza se depara com conjunturas formadas no oposto de seus sentidos reais. Isso porque o artista gerou um método de autoconhecimento por meio do acesso às suas memórias ancestrais, no período de produção das obras vistas nesta mostra. Ou seja, qualquer alusão ao termo como falta ou esquecimento poderia ser mero devaneio nosso, ao passo que a imersão nessas lembranças é seu combustível para uma criação que nasce imbuída de cargas sinestésicas.

Como em um processo de deglutição da própria memória em movimento, criando pontes e cruzamentos entre o real e o metafísico, sua obra estabelece interesses que envolvem uma noção de jogos de tipos que se movem em campos abertos. Nas
pinturas realizadas durante o máximo momento de introspecção imposto pelas condições sanitárias vigentes, vicissitudes permeiam o imagético em uma rede de significados afetivos, temporais e espaciais. As obras são como a frequência de um ritmo inconstante, estabelecido pelo padrão do gesto que se repete na tela enquanto rastro de lembranças.

Desse resgate entendido como espiritual, um diálogo afirmativo é improvisado através do próprio corpo do artista. Impossibilitado de participar dos encontros presenciais proporcionados pela capoeira, Souza institui um jogo em que a capoeira é o elemento fundante da prática pictórica. A interdição dessa liturgia, desse diálogo corporal e não verbal, transborda ao seu conhecimento interior, e seu corpo é o rascunho desses movimentos e composições que geram as imagens para os novos trabalhos. Na descoberta desse horizonte, inserções de linhas, de desenhos que se dão simultaneamente, cada um a seu tempo, formulam-se como vibrações daquilo que se vê e do que não é visto na superfície da matéria: as pinturas são uma espécie de evocação desse não dito.

Em imagens que criam situações entre si, o material e o intangível confluem em sobreposições à sombra de um recorte de tal memória. O artista se interessa em gerar acidentes no suporte, no qual elementos abstratos se atravessam e se modificam. No
entanto, a cor é empregada de maneira racional. Aqui, as bases cromáticas sintetizam uma energia de comunicação entre a obra e o espectador, ao tentarmos desvendar as camadas impregnadas na tela.

Ao depositar as peças desse jogo caótico, Souza especula uma pintura como interesse de ação. Entre as conexões de um inconsciente coletivo, sendo sua memória constituída a partir de bases afrodiaspóricas e de povos originários, cosmovisões se sobrepõem às expressões plásticas. Coabitando entre esses mundos, seu corpo, pela primeira vez, conduz a obra e o modo com o qual o artista se comunica com o outro e consigo. Se na Capoeira Angola as expressões coexistem por meio do raciocínio e do jogo, nas telas de Igor Souza as ciências exatas e a imaterialidade fluem e compartilham das mesmas acepções. 

Em CO_LAPSO, ao nos depararmos com uma nova fórmula proposta para o termo, estamos diante de enredos que se complementam. Na medida em que as partículas silábicas são corpos cacofônicos, o sentido de dano inerente à palavra perde força. Da quebra, costuras são feitas como espaços de experimentações; do interior, a memória é extraída como mecanismo de cura. Nessa equação, estamos todos aquém dos nossos sentidos

Deri Andrade

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