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Vi, pela primeira vez, as pinturas de Brígida Campbell no Instagram. Foram demasiados meses de solidão e raiva durante o isolamento imposto pela pandemia. Mas um dia, apareceram na tela imagens que traziam uma promessa de felicidade. Magentas intensos, rosas audazes, laranjas vibrantes, cálidos amarelos, turquesas brilhantes, dourados... Neste inverno de desassossego brotara a possibilidade de um verão quase esquecido. Evoquei Matisse, doente, trancado por ordens do comando alemão, na sua casa em Nice, fazendo os seus magníficos guaches recortados. Não porque houvesse alguma proximidade entre um trabalho e outro mas pela aposta na restauração do mundo e da vida.

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A exposição leva por título um animal que inventa a si próprio. A enigmática frase encaminha para uma reflexão sobre a animalidade que há em nós, sempre esquivada ou oculta. Na linguagem popular, e ainda na política, existe uma tendência a diminuir o humano a partir da animalização: o homem-macaco, o menino selvagem, o homem fera. Na modernidade, o judeu, o escravo, o negro, o índio, o bárbaro, o migrante, o estrangeiro aparecem como figuras animalescas com formas humanas4, o não-homem é desqualificado através da humanização do animal.

Mas, como um animal pode-se inventar a si mesmo? Quando deixa de ser metáfora do humano ou de virtudes ou defeitos humanos? Quando deixa de ser uma fera? Quando é um animal em si mesmo e não um substituto do humano, porém mais dócil, menor, menos demandante, muito menos necessitado?


4.  AGAMBEM, 2002. p.76.





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