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Nestas pinturas, nestes desenhos, os animais – pássaros, sem dúvida, mas também cachorros ou lobos, aparecem, silenciosos, brancos, quase transparentes, feitos de traços delicados, de aguadas translúcidas. Flutuam num espaço que é, ao mesmo tempo, sólido como um muro e impalpável como um céu.

Um espaço celestial, rabiscado por signos, plantas delicadas, manchas, estrelas,  borrões, figuras geométricas, um céu que tem as cores que aparecem naquele limiar que sucede ao crepúsculo ou que antecede às primeira horas do dia, o céu do princípio ou do fim da luz, onde os amarelos se transformam em alaranjados ou os rosas em morados.

Um muro igualmente tocado pelos primeiros ou os últimos raios do sol, onde Brígida – artista urbana desde o princípio – , grafita, grava, picha, rabisca, desenha, pinta. Um muro como palimpsesto que deixa ver uma duas três, múltiplas camadas de traços, superfícies, riscos, desenhos serigrafados, aguadas...

A pintura plana explora a infinita riqueza das superfícies, sem desejar profundidades falidas nem transcendências retóricas. Pura pintura como queria Clarice: tinta sobre a tela, o cheiro do material e o barulho áspero do pincel raspando o suporte. Um corpo recluso se entrega aos gestos largos sobre o suporte pictórico ou aos pequenos e precisos  sobre o papel.

Os desenhos, mais delicados, deixam ver figuras humanas diminutas, poucos animais, árvores e signos gráficos que se agrupam em um setor da folha deixando grandes espaços vazios. Comungam do mesmo espírito das pinturas, se abrem porém a dimensões mais extensas e mais íntimas.
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Por força do hábito busquei uma genealogia para as pinturas (os desenhos são mais próximos dos trabalhos de Brígida que conheço faz tempo), mas fora de suas referencias ao grafite e a pichação foi difícil encontrá-la. Viram a mim as delicadas aquarelas de Julius Bissier, as belas aguadas de Helen Frankenthaler, os riscos e rabiscos de Cy Twombly, mas são somente aproximações mais ou menos distantes que provem de uma memória de imagens não atualizada.

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Entre 2003 e 2004, os integrantes do Grupo Poro, entre eles, Brígida Campbell, realizaram uma intervenção urbana durante a qual colavam adesivos fluorescentes em locais sem cor. O título do trabalho era: Imagem… cor.

Nas cidades, onde as ruas, os passeios, os muros, os postes, as grades e até os carros eram de um cinza multiforme e monótono, os jovens artistas inseriam quadrados de papel colorido com a palavra COR. A paisagem urbana mudava com esses destelhos, nem que fosse até as próximas chuvas.







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