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Práticas para destrinchar a cidade


Letícia Lampert



    Mesclar 14
impressão em pigmento mineral sobre papel alfa-celulose, série de 5 cópias (1/5) + 1 PA
117x100cm
2021


R$ 12.000
+ info | adquirir

    Expandir 1
impressão em pigmento mineral sobre papel alfa-celulose, série de 5 cópias (1/5) + 1 PA
80x80cm
2019


R$ 8.000
+ info | adquirir


    Expandir 2
impressão em pigmento mineral sobre papel alfa-celulose, série de 5 cópias (1/5) + 1 PA
80x80cm
2019


R$ 8.000
+ info | adquirir


Ecos reversos da urbanidade

Alejandra Muñoz

A primeira vez que vi as fotos de Letícia Lampert, lembrei dos estudos de morfologia urbana que, por muito tempo, me atraíram durante a minha formação de arquiteta. Entretanto, havia algo mais naquelas texturas. Na fruição mais imediata, ecoavam diversas poéticas que atravessam o século XX explorando o fragmentário como possibilidade de construção artística: dos delicados papier collés de George Braque às pungentes fotomontagens de Hannah Höch; das frenéticas ‘sinfonias urbanas’ em celulóide à materialidade densa dos Merz de Kurt Schwitters; inclusive me parecia haver um encontro de texturas e escalas tão opostas como as cirúrgicas construções gráficas de Max Ernst e os recortes monumentais de Gordon Matta-Clark. Mais tarde soube que Lampert dissera que pelo menos duas dessas referências são inspiradoras diretas do seu processo artístico.

As fotografias de “Práticas para destrinchar a cidade” - e esse título já denuncia uma intenção iconoclasta - são oriundas de um trabalho de bricolagem da realidade. São parte de um processo complexo, menos no aspecto técnico da execução de cada peça e mais pela articulação intelectual que perpassa a proposta. O resultado visual é um acúmulo de empenas mudas e fachadas irrelevantes, quase um arremedo dos sonhos do Movimento Moderno. Embora o foco da artista não seja a discussão da cidade, há, sem dúvida, uma crítica potente ao ideário moderno, contudo, sem chegar ao catastrofismo emblemático de Pruitt Igoe. A artista aprofunda uma questão incômoda que me parece ter sido lançada naquela série anterior que ela chamou de “Topiaria Urbana”: é a cidade um modo de natureza? Ou, parafraseando Goethe, até que ponto a urbanidade contemporânea configura uma terceira natureza? Conforme projeção das Nações Unidas, se em 2050 mais de 70% da humanidade estará vivendo em cidades, nossa visualidade cotidiana caminha para uma onipresença de concreto cinza, reflexos de vidro e aço, e muros com cores esmaecidas. Nessa perspectiva, as imagens de Lampert não são apenas uma constatação aflitiva do recinto no qual muitos já vivemos, como também o vaticínio derradeiro de um futuro sem horizonte para todos. E metaforicamente, isso pode nos levar a muitas outras leituras no mínimo melancólicas, claro. Mas isso seria avançar para um lugar óbvio.

Segundo a artista, sua pesquisa é sobre a arquitetura como mediação das relações entre as pessoas. Sem qualquer resquício de olhar antropológico ou a literalidade da presença humana nas imagens, as fotografias de Lampert deixam claro que a arquitetura é sempre uma produção humana - embora admiremos a “engenharia” dos diques dos castores ou a “qualidade formal” da casinha de um joão-de-barro. Portanto, a artista é autora daquela peça, mas de um modo mais abrangente, todos nos somos co-partícipes daquele resultado, estamos implicados na construção da cidade e somos responsáveis pelo que está ali.

A artista diz que gosta de caminhar sem rumo pela cidade, com o olhar atento registrando texturas e formas urbanas. Ou seja, o ponto de partida do seu trabalho é a vivência in loco e, consequentemente, podemos dizer que há uma dimensão documental nas fotografias iniciais. Em um processo posterior, identifica possibilidades combinatórias das capturas, faz recortes e retrabalha os fragmentos para (re)compor uma imagem nova. Portanto, avançamos na dimensão ficcional da fotografia. Muita gente faz isso, artistas ou não, mas Lampert vai além da ideia recorrente do flâneurbaudelairiano e não parece tomada por qualquer spleen. No exercício de um olhar transumante, a artista trata a cidade como object trouvé, despojada do severo juízo da arquitetura e afastada de qualquer diagnóstico urbanístico. Para a artista a cidade apenas é, está aí, existe. Inclusive há uma entrelinha que me seduz no seu modo de construir imagens: a exaltação despretensiosa da textura banal da urbanidade. Uma atenção dirigida menos ao resultado final da busca e mais a favor do processo da descoberta. A cidade, mais especificamente a densa trama de concreto de São Paulo em um momento de 2017, carece de um horizonte apreensível na escala dos transeuntes.

O interesse da artista se relaciona mais com o mundo visível e do modo como percebemos, tanto o que nos ajuda a ver quanto o que embaralha nossos sentidos. Assim, as imagens me parecem uma boa síntese de um processo de afastamento do ser humano como medida e referência para a construção da paisagem urbana. Os fragmentos da cidade como grande artefato se encaixam coerentemente em uma lógica autorreferente urbana, embora sem a retórica ufanista da “grande cidade” e sem qualificar a sua relação com o indivíduo. Vale a pena uma breve digressão sobre isso.
Até fins do século XVII, referências antropomórficas estruturavam a percepção visual da cultura da perspectiva e da projeção do espaço. Mas, desde inícios do século XIX, as tradicionais unidades de medida antropométricas (a braça, o pé, o palmo, a polegada) foram substituídas pelo metro, uma unidade deduzida de uma dimensão astronômica. Um novo mundo abstrato abriu uma dimensão mental ilimitada que permitiu à arquitetura e ao urbanismo trabalhar com novas escalas e medidas sobre novos conceitos científicos e técnicos. Apesar de que a história é bem mais complexa, pode-se dizer que, gradativamente, a inserção dos objetos arquitetônicos na paisagem terrestre foi perdendo a referência do humano e, nas últimas três décadas, vem exacerbando o seu distanciamento do indivíduo singular na cacofonia da explosão demográfica e da expansão urbana. Então, as imagens de Lampert me parecem cristalizar essa dupla saga do distanciamento do humano como parâmetro e da emergência da paisagem como abstração incomensurável. Nesse contexto, a fachada arquitetônica passa a ser uma unidade de referência espacial sometida à lógica da reprodução seriada da construção civil. O espaço urbano acaba sendo mais um suporte de acúmulo de volumes e atividades e menos uma profundidade pictórica e uma relação entre corpos.

Para a artista, há um fascínio em desmontar algo existente e remontá-lo. Mas, qual é o mecanismo que Lampert monta e remonta? A cidade em sua engrenagem é despojada dos humanos que a habitam, é dissecada em instantes inertes, é abstraída da complexidade dos seus fluxos. Há um diálogo imbrincado entre afastamento, captura, aproximação, reconhecimento e criação de uma nova imagem. Além disso, como dito antes, a artista coloca o problema do ponto de vista e do alcance do olhar, duas variáveis fundamentais na concepção da paisagem como construção e recomposição do visível e não como resultado físico e material da ação humana num determinado contexto natural. No processo, lança mão de verbos que, mais do que uma palavra que indica acontecimentos representados no tempo, denotam gestos e operações conceituais sobre a pré-existência concreta da cidade.

Nesta exposição se apresentam peças das micro-séries Mesclar,Expandir e Deslocar. Segundo a artista, a colagem na parede é um recurso de expansão da imagem além do formato tradicional. Mas no caso das peças Mesclar, não há colagem e sim um trabalho que se aproxima mais da operação de marchetaria, sem sobreposição de partes, e construindo uma nova imagem por meio de encaixes de fragmentos. Nas obras Expandir a artista explicita diálogos com a pintura, através da cor como chave para a definição formal. Em ambos os grupos fica evidente o sentido compositivo do fragmento bidimensional anulando toda possibilidade dos edifícios como realidade volumétrica; são panos de matéria em sua qualidade de superfície. Das imagens em exposição, apenas na micro-série Deslocar a artista parece retomar uma vontade menos claustrofóbica com a inserção de planos azuis na parte superior das imagens que contribuem para uma leitura de skyline.

Assim, a operação poética de Lampert parte da imersão na densidade urbana, neste caso São Paulo, que avança para um exercício de desmontagem do conhecido e, a partir dos fragmentos desse todo destrinchado, a colagem das partes em uma nova sintaxe visual. Porém, há um passo além da simples junção e/ou justaposição inerente ao collage e afins: o trabalho no fragmento, na dinâmica de construção de um contorno, do recorte e do preenchimento. Aqui me parece importante ressaltar que Lampert reconhece Kurt Schwitters e Gordon Matta-Clark como fontes importantes da sua pesquisa.

Por um lado, com Schwitters me parece haver uma proximidade conceitual no modo como incorpora os fragmentos que, embora reconhecíveis, instauram situações paradoxais de materialidade e contexto. Uma empena que se comporta como espaço vazio. Janelas comuns que parecem mais um rendilhado de masmorra. Incidências de luz cotejáveis a desenhos gráficos ofuscantes. Como nos Merz, nas imagens de Lampert, às vezes, tudo parece confluir para uma asfixia por texturização. Por outro lado, essas imagens também têm vínculos fortes com o trabalho de Matta-Clark, sobretudo com os célebres building cuts. Os resultados visuais de ambos artistas dividem essa estranha obsessão pelo deslocamento monumental da arquitetura para a inutilidade, isto é, uma subversão da legitimação funcionalista do espaço: ninguém mais pode morar nessas novas construções que eles criam. É a anulação de toda possibilidade da machine d’habiter. Nesse ponto, mais do que uma crítica ao legado moderno, repito, as imagens de Lampert exalam iconoclastia. E, em tempos de overdose imagética cada vez mais ameaçados pelo invisível, isso me resulta promissor para repensar minha condição urbanóide.




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