Pequeno retorno à terra


viewing room: rômolo




Sísifos
colagem, aquarela e técnica mista sobre papel de algodão, 50x36cm
2019


R$ 4000,00    ︎





Sísifos
guache, acrílica e técnica mista sobre papel de algodão, 35x35cm
2019


R$ 3500,00    ︎





Sísifos
colagem, aquarela e técnica mista sobre papel de algodão, 35x24cm
2019


R$ 3000,00    ︎





Sísifos
bordado e aplicação sobre tecido, 90x57cm
2019


R$ 6000,00    ︎
Em atenção as sutilezas da vida, Pequeno retorno à terra apresenta a recente produção artística de Rômolo D’Hipólito e compartilha conosco uma série de trabalhos que nascem das colheitas de suas vivências, sobretudo do período em que ele passou em Oaxaca, no México, nos anos de 2017, 2019 e 2020.

A fim de melhor compreender sua obra, antes é preciso mencionar que D’Hipólito nasceu em Foz do Iguaçu – tríplice fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai –, realizou residências em Hong Kong, Tailândia, Malásia, Japão, Hungria, Croácia, Itália, Espanha, Marrocos, México e Guatemala, deu a volta ao mundo e nos momentos de pouso habita a cidade de Curitiba. Ou seja, vive em constante deslocamento.

Sempre acompanhado de caneta nanquim preta e tinta guache colorida, o artista costuma desenhar em seus inúmeros cadernos de viagem tudo aquilo que o toca, o atravessa. É possível dizer que seus cadernos atuam como extensão de seu olhar, cumplices de vivencias e guardiões de memórias visuais, afetivas e particulares. Cadernos que, mesmo sem pretensão, preparam o terreno para suas gravuras, esculturas e peças em tecido.

Por sua condição nômade, é possível notar influências de diversas culturas em sua produção. Foi em Tisserdmine, no Marrocos, onde D’Hipólito aprendeu sobre a manufatura do tear, o preparo de pigmentos naturais e os significados dos padrões geométricos marroquinos, de modo a realizar trabalhos em tecido. Bem como foi em Tokyo, no Japão, onde se encantou pelos ideogramas japoneses, seus caracteres e estilo de escrita na vertical, passando a incorporar fragmentos de textos japoneses em suas obras e a assinar conforme um ideograma vertical.

Entretanto, a influência de Oaxaca se faz mais pulsante nas obras aqui presentes, muitas vezes determinantes na criação dos trabalhos. Foi nessa cidade onde ele teve contato com a tradicional cerâmica mexicana – observando o oficio das mulheres que produziam os artesanatos e os objetos utilitários em barro – e com a litogravura, uma vez que as pedras mexicanas de lito apresentam as mesmas propriedades químicas das pedras europeias.

Sobre os trabalhos em exposição, as cerâmicas e as peças em tecido foram produzidas em Curitiba, enquanto que as litogravuras foram realizadas em Oaxaca no ateliê público Rufino Tamayo e no ateliê Bambú do mestre Abraham Torres; onde o artista esteve em residência. Isto porque, o espaço e o tempo de cada meio é respeitado, assim como o cultivo das plantações.

Para além das múltiplas linguagens que dão corpo aos trabalhos aqui presentes, muitos dos conceitos que os abarcam também são inerentes a cultura mexicana. Nota-se a referência ao muralismo mexicano e aos assuntos  particularmente regionais como, por exemplo, a feitura do mescal com agave, a música popular dos Mariachis, as festividades religiosas, as feiras de rua, a influência da civilização Zapoteca, as frutas e as plantas endógenas.

E mesmo falando sobre alteridade, é preciso enfatizar que sua obra não se põe a serviço da construção do exótico e do monumental, pelo contrário, o respeito com as demais culturas e com a natureza, principalmente com os trabalhadores da terra, é o que faz sua produção ser tão potente. Não somente existe uma consciência do lugar de fala, como também uma reverência ao local, como se sua obra homenageasse a pluralidade e a diversidade da vida.

Desta forma é possível dizer que mais do que “artista viajante” – a fim de romper com a ideia colonial do termo na História da Arte, o qual se refere as expedições artísticas e científicas coloniais das Américas no sec. XVI –, D’Hipólito é um artista “Terrestre”, tomando emprestado o conceito do antropólogo e filósofo francês Bruno Latour: Isso porque o Terrestre, estando vinculado à terra e ao solo, é também uma forma de mundificação, já que não se restringe a nenhuma fronteira e transborda todas as identidades. (Onde Aterrar, pag. 66, 2020)

Não é em vão que suas imagens estão repletas de mãos e pés agigantados, no desejo de plantá-los na terra e se conectar com o ambiente onde se encontram. Como que seus trabalhos buscassem nos despertar para uma conexão entre natureza e cultura, alertando-nos para a consciência de que estas são uma só. É com poesia que suas obras dizem o quanto urgente é cultivar a arte, o solo e todas as formas de vida.

Isto porque o Pequeno retorno à terra é uma exposição que vai ao encontro da produção artística e da história pessoal do artista, na medida em que ambas são intrínsecas. É deste modo, em meio a beleza das cores, traços, volumes e formas, que somos convidados a nos reconectarmos com a origem da existência: a terra.

Paula Borghi

Sísifos
escultura em cerâmica com esmalte de alta temperatura e madeira entalhada, 36x40x12cm 
2019


R$ 7000,00    ︎




Sísifos
escultura em cerâmica com esmalte de alta temperatura e madeira entalhada, 25x30x10cm
2019


R$ 6000,00    ︎






Sísifos
escultura em cerâmica com esmalte de alta temperatura dimensões, 25x23x13cm
2019


R$ 5000,00    ︎






O ser antropomórfico
escultura em cerâmica com esmalte de alta temperatura, madeira entalhada e aplicação em tecido, 36x45x10cm
2019


R$ 6000,00    ︎




P. As esculturas trazem para o tridimensional as imagens que estão lá no bidimensional nas colagens, nas pinturas. Quando olhei as esculturas, eu vi como se fossem indígenas maias fazendo oferendas para os deuses, me remeteu muito a ideia de oferendas, de um sagrado.

R. Ah sim! Eu gosto de trabalhar um pouco a imagem dessa figura mais espinhuda que eu encontrei no urucum, talvez, no Brasil, e no durian, do sudeste asiático, e eu gosto de enxergar nesses tipos de frutas, como por exemplo no pepino africano... eu fico muito fascinado sobre a forma desse negócio, como se a natureza tivesse dado um bug, sabe? Como se isso fosse uma representação do absurdo que é o mundo que a gente vive.

E daí eu gosto de trabalhar esses elementos em cima da cabeça dos personagens porque eu tenho também pensado muito sobre a imagem do Sísifo¹, que ele está sempre carregando uma pedra para o alto, e depois a pedra rola e ele volta a fazer isso todo dia, né? Então é como se fosse uma representação da pessoa comum.

Todos nós estamos carregando o absurdo que é essa sociedade. As frutas e esses outros elementos que você não consegue entender se eles são utilitários ou decorativos, mas que continuam sendo carregados todos os dias por pessoas comuns, sem questionamento. É esse o pensamento para essa série.

P. Acho que tem um peso social aí também, das mulheres que trabalham e que tem de carregar muito peso na cabeça, acho que você deve ter visto muito isso no México, as pessoas que vendem comida nas ruas. Não é um trabalho fácil. Então tem uma força de trabalho que é pouco valorizada, a gente pode dizer, mas que é, ao mesmo tempo, uma herança cultural muito forte, vem de uma ancestralidade. Então quando você traz essas imagens, de carregar na cabeça, elas evocam ideias de sacrifício, mas também pode ser uma oferenda, algo sagrado.

R.
É isso mesmo.  É dicotômico, né? Nunca é um negócio só negativo, ou só positivo, sempre é o que é, essas coisas são o que são.


¹. Na Mitologia grega, Sísifo, rei de Corinto, era considerado o mais astuto de todos os mortais. Após ter provocado a ira de Zeus por denunciar o rapto da mortal Egina, Sísifo escapou algumas vezes de Tânato, o deus da Morte, através de engenhosos ardis. Muito depois Hermes logrou levá-lo ao Hades, onde foi condenado, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido. Sísifo tornou-se, assim, conhecido por executar um trabalho rotineiro e cansativo. Tratava-se de um castigo para mostrar-lhe que os mortais não têm a liberdade dos deuses. Os mortais têm a liberdade de escolha, devendo, pois, concentrar-se nos afazeres da vida cotidiana, vivendo-a em sua plenitude, tornando-se criativos na repetição e na monotonia.  
Fonte: Wikipédia





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