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Correria

Marcos da Matta
13/07/2022 a 13/08/2022


Release

A partir de 13 de julho, a RV Cultura e Arte apresenta Correria, viewing room de Marcos da Matta, com texto de Uriel Bezerra.

Artista do Recôncavo, Marcos tem se debruçado, desde 2020, sobre o contexto dos trabalhadores de rua da região, produzindo a série Correria, uma tentativa de narrar não só o que move o trabalhador a sair de casa atrás do seu ganha pão, mas também o que o faz querer voltar para casa. Em um misto de ficção e realidade, o artista tem construído pinturas em que explora composições angulares, cores sólidas, cenas povoadas por autorretratos e ferramentas banais, além de pequenos textos recheados de metáforas e ironia.

“Tomando a pintura como suporte privilegiado, a investigação se centra na sua experiência em meio ao universo do trabalho dito ‘informal’. Contudo, apesar da realidade acachapante desse contexto em que o artista se faz protagonista e testemunha ao mesmo tempo, as obras não se limitam à denúncia pasteurizada de sua precarização, tampouco se prestam à romantização de suas diferentes atividades. Percebe-se a conformação de uma linguagem que beira uma crônica visual, sem perder de vista o saber acumulado da própria tradição pictórica, tal qual diversos artistas negros nas Américas abordaram, à sua maneira, a realidade que os atravessa por meio de temas como educação, trabalho, lazer, em constante tensão com a historicidade da pintura, majoritariamente branca”, escreve Uriel Bezerra.

Correria pode ser visitado até 13 de agosto presencialmente na RV Cultura e Arte - de segunda a sexta, das 10:00 às 18:00 e aos sábados das 10:00 às 14:00; e de forma online, pelo site da galeria (www.rvculturaearte.com).



Texto crítico

À maneira de Cosmos e Damião

Em um mundo tomado pela iconofilia, no melhor dos cenários, as imagens se tornam elementos decisivos para a formação de artistas como Marcos da Matta (1989). Crescido na região do recôncavo baiano, em Conceição do Almeida, teve contato com as artes visuais durante a infância. Partiu do desenho, experimentando desde a linguagem dos mangás, até o retrato baseado em observação. Quando adulto, passou a trabalhar com estamparia, o que lhe proporcionou contato com a pintura, vínculo que aprofundou na universidade, contudo, sem abrir mão do interesse pela figuração e temas caros ao seu cotidiano. 

Em Correria, conjunto que dá título ao Viewing Room da galeria RV Cultura e Arte, Marcos apresenta uma pesquisa iniciada em 2020, na cidade de Cachoeira de São Félix (BA), onde investiga, por meio da pintura, aquilo que chama de “sustento” no mundo do trabalho, especialmente o informal. Segundo o próprio, tal ideia não se refere apenas a valores monetários, mas também à dimensão afetiva e até mesmo espiritual do labor, o que, obviamente, não é tão simples. Quando se agrava a falta de estrutura e amparo para os trabalhadores, afetos positivos tornam-se cada vez mais raros, engolidos que são pela realidade acachapante da sobrevivência. Marcos da Matta, enquanto jovem artista, é sabedor dessas condições e procura atuar nas suas brechas, indagando-se sobre o que “mantém” essas pessoas para além da necessidade que as move diariamente. “O que as conduz de volta para casa?”, pergunta.

À primeira vista, os trabalhos apontam um olhar que reveza basicamente entre duas posições, ou seja, cenários onde o artista se implica ora como protagonista, ora como testemunha. Neste último, objetos como barracas, bicicleta de carreto e carrinho de empilhar papelão são destacados de seu cenário original, que é substituído por um horizonte dividido entre a superfície magenta e o céu amarelo ou azul. Embora a ausência de qualquer figura humana chame a atenção (comum ao período em que se inicia a pesquisa, auge da pandemia da covid-19), a riqueza dessas paisagens repousa nos detalhes e não na sua tautologia. A barraca de “Pastel do Alemão”, por exemplo, ponto conhecido dos cachoeiranos, é envolvida por letreiros garrafais contendo sua identificação e o menu, mas o aspecto mais curioso é a inscrição do topo direito da fachada, que cita o evangelho de João. Enquadrada no contorno que imita um livro aberto, diz: “Porquê Deus nos deu a vida eterna e esta vida está em seu filho Jesus Cristo. João 5:11”. A representação da escrita, além de evocar a tradição da própria pintura, em particular a tendência descritiva do barroco holandês[1], aponta para a ideia de Marcos sobre o “sustento”, nesse caso em específico o espiritual que - bem ou mal - sinaliza a capilaridade das religiões cristãs em um país profundamente desigual.


Em outro ângulo, aquele no qual o artista se faz protagonista, ele se autorretrata em pelo menos três profissões: o vendedor ambulante de comida, que carrega em sua companhia o isopor e a garrafa térmica de café, o vendedor de cerveja e o catador de latinhas. Na pintura mais emblemática, “Marcos sonha em ser mototaxista”, o recurso à relação texto-imagem se torna mais aguçado, a começar pelo título, que complementa o sentido da cena. Sentado sobre um isopor, apoiando a mão no queixo, Marcos fabula seu futuro, cujo próximo passo será ascender à profissão de mototaxista. Para muitos, o tom quase pueril é desconcertante, soa como um contrassenso, quando não, uma ironia, visto que o “natural” seria desejar sair da informalidade. O que haveria de tão atraente nesse sonho? E se essa atividade fosse tão valorizada como tantas outras, como seria notada? O problema está no trabalho, ou no valor que a sociedade delega ao mesmo e, por consequência, àqueles (ou sobretudo àquelas) que dele se ocupam? Em suma, o que sustenta essa posição? Na parede ao fundo da rua, paira o esboço de uma resposta: “Exu vigia os pivete na pista”.

Outra imagem em que se repete a menção à espiritualidade - provavelmente a mais cativante - é o autorretrato “Cosmos e Damião”, título que faz referência direta à música dos Novos Baianos. Emulando a posição dos orixás gêmeos Ibejis, sincretizados na Umbanda com os santos católicos Cosme e Damião, o artista posa à esquerda como vendedor de bebidas, tendo um isopor aos seus pés, e à direita como catador de latinhas, que segura um saco plástico cheio. O cenário ao fundo chama atenção pelo canhão verde, referente ao disposto na Praça da Aclamação de Cachoeira, cuja textura e cor vívida realçam a ambiguidade da representação. Seria arma de fogo ou de brinquedo? No último plano, as fachadas das casas são substituídas por isopores coloridos, edição que, além de garantir o destaque dos elementos à frente, reforça o jogo de sentidos em torno das figuras gêmeas. Nesse caso, a intenção de Marcos está  mais explícita: os dois trabalhadores são homenageados sob a imagem dos deuses irmãos, lembrados por trazerem alegria e pureza aos cultos de matriz africana.

Na longa tradição da pintura ocidental, imagens que abordam trabalho não são raras, entretanto grande parte, quando muito, contribuiu para reforçar estereótipos, racializando populações inteiras e definindo papéis sociais em grandes utopias. Desde meados do século XX,  a crítica a esses modelos é crescente, mas reitera problemas que Correria revela, pois não se trata de mais uma denúncia pasteurizada acerca da precarização da mão-de-obra informal, tampouco se presta à romantizar esse universo sob a ótica da subalternização, reforçando fetiches por um "Outro social" ou "cultural"[2]. O que se nota, em última instância, é o instigante jogo poético que o artista, à maneira perspicaz e leve dos Ibejis, ensaia com as imagens, que de inocentes, não tem nada.

Uriel Bezerra


[1] Ver ALPERS, Svetlana. A Arte de descrever: a arte holandesa no século XVII. São Paulo, Edusp, 1999.
[2] Ver FOSTER, Hal. O artista como etnógrafo. In: FOSTER, H. O Retorno do Real. São Paulo, Cosac & Naify, 2014.




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