A ESTRADA QUE MORA NA MADEIRA

EXPO-CÁPSULA DE THIAGO NEVS
14 MAR - 02 MAI







“Bom mesmo é ter um caminhão, meu amor”

Quando, em Bye Bye Brasil, Chico Buarque afirma “bom mesmo é ter um caminhão, meu amor”[1], a canção toca num dado profundo da experiência brasileira: a centralidade da estrada como paisagem material e imaginária do país. No Brasil, “filetagem” ou “filetes” costuma designar a ornamentação pintada à mão e aplicada às carrocerias de caminhão. Ainda que rara hoje, em algumas regiões do país, especialmente no interior, é possível encontrar esses adornos que compõem o rico universo gráfico das rodovias brasileiras.

A presença dessas imagens atingiu seu ápice na década de 1950, em estreita relação com o letrismo popular. No contexto das oficinas ou fábricas de carroceria, a filetagem não era concebida como mero adereço decorativo, mas como etapa integrada ao processo de manufatura das estruturas em madeira. Contudo, desde os anos 1990, o ofício tem dado lugar à automação industrial, que privilegia acabamentos uniformes, quando não adesivados.

Diante desse fenômeno está o gesto de Thiago Nevs apresentado na exposição “A estrada que mora na madeira”. Partindo de uma pesquisa iconográfica que se amplia para além do território brasileiro, o artista afirma uma linguagem baseada no ofício de filetadores e abridores de letra, expandindo-a sobre diferentes planos, suportes, técnicas e materiais. Nisso, ele também nos convida a perceber que o ornamento não se reduz a um recurso gratuito, mas constitui uma visualidade que reúne expressão subjetiva, elaboração estilística complexa e disputa simbólica.

A princípio, as imagens produzidas por Nevs chamam a atenção por evocar o rigor dos filetes tradicionais, obedecendo ao que o historiador da arte E. H. Gombrich chamaria de “sentido de ordem”[2], ou seja, pautando-se por princípios de repetição, simetria, agrupamento e enquadramento das formas sobre a superfície. Não obstante, na elaboração do ornamento, a complexidade é fator fundamental. O encanto do filete vem de uma complicação controlada: variações mínimas, floreios, microdiferenças derivam do uso virtuoso do pincel, que Thiago Nevs conjuga à aplicação de tinta spray, herança de sua trajetória na pixação e no grafite.

Em “VUC”, sigla para Veículo Urbano de Carga, percebemos que o emprego dos filetes estrutura todo o espaço da tela, desde a moldura e seus frisos até o espaço interno, onde eles se reorganizam em espirais, círculos e motivos florais. A paleta vibrante, aliada ao uso do preto, propõe uma relação imersiva, marcante na filetagem peruana. Algo semelhante pode ser visto em “Carga Leve”, outro trabalho da exposição, cujo enfoque está na infinidade de construções possíveis a partir da estrutura-base do filete.

Já em “Paz Interior” surgem novos elementos. A moldura central contém a ilustração de uma paisagem litorânea idílica, com céu e mar tomados por um gradiente de cores saturadas, tal qual um cartão-postal. Acima e abaixo aparece um letreiro azul com o lema que dá título à obra, enquanto nas laterais encontramos duas lanternas bate pé. Aqui, não só o ornamento se submete ao princípio construtivo que organiza a imagem, mas também a ilustração, o letreiro e a aplicação de partes do caminhão.

No contexto das estradas, a pintura de paisagens de feição postal, frases de efeito, versos bíblicos ou ditos populares, afirmam um repertório de expressões de afeto, desejo e pertencimentos dos motoristas. Por sua vez, a “remontagem” proposta por Nevs, além de homenagear esses trabalhadores com os quais possui identificação afetiva, tensiona discretamente a arquitetura dos espaços de arte, muitas vezes pautada por princípios avessos ao ornamento e ao excesso, também mobilizados como forma de distinção social.

Por fim, em “Longarina”, Thiago Nevs propõe um exercício radical sobre as manufaturas que envolvem a fabricação de carrocerias. Em vez de inserções pontuais, as estruturas do caminhão são incorporadas ao próprio suporte por meio da técnica de marchetaria, ou seja, o artista monta suas composições a partir de recortes e texturas da própria madeira de carroceria, justaposta à aplicação de folhas de cobre e prata, sem abrir mão da pintura de ornamentos em esmalte. Nesse sentido, a aproximação com a Bauhaus pode ser produtiva, não no plano iconográfico, mas na compreensão do fazer artesanal e das oficinas como base técnica e metodológica para a construção de uma linguagem visual.

É precisamente nesse movimento que sua obra ganha força. Ao recuperar repertórios e técnicas gráficas ligados ao caminhão, à carroceria e à cultura visual das estradas, o artista não opera sob o signo da mera nostalgia, nem pretende restituir intacto um universo em desaparecimento. Antes, reinscreve esse vocabulário no presente, deslocando-o de sua função utilitária para o campo do pensamento visual. O filete, assim, deixa de ser lido apenas como acabamento decorativo e passa a afirmar sua densidade histórica, técnica e simbólica.

Nessa operação, há algo que diz respeito ao modo como o Brasil se imagina e se vê. Afinal, a estrada, a carroceria, a madeira pintada, o letreiro e a paisagem condensam experiências de circulação, trabalho, desejo e invenção popular que marcaram a história cultural do país ao longo do século XX. Ao trazer esses elementos para o espaço expositivo, Thiago Nevs não apenas amplia o campo da pintura, como também reposiciona saberes muitas vezes relegados à margem das narrativas legitimadoras da arte. Sua produção nos lembra que a sofisticação formal não é monopólio dos circuitos eruditos e que a inteligência do ornamento pode emergir, com igual complexidade, dos ofícios populares.

“A estrada que mora na madeira” apresenta mais do que uma reunião de obras orientadas por um mesmo repertório iconográfico. O conjunto oferece uma reflexão sensível sobre permanência, deslocamento e transformação. Entre o gesto pictórico e a dureza da estrutura, entre a memória do caminhão e a reinvenção da matéria, Thiago Nevs faz da filetagem não um resíduo do passado, mas linguagem viva, capaz de reorganizar nosso olhar sobre a pintura, o ornamento e as imagens que seguem atravessando, silenciosamente, a experiência brasileira.

Uriel Bezerra



[1] BUARQUE, Chico; MENESCAL, Roberto. “Bye bye, Brasil”. In: Vida, Chico Buarque, 1980.
[2] GOMBRICH, E. H. O sentido de ordem: um estudo sobre a psicologia da arte decorativa. Porto Alegre: Bookman, 2012.


“Bom mesmo é ter um caminhão, meu amor”

When, in Bye Bye Brasil, Chico Buarque sings “bom mesmo é ter um caminhão, meu amor,” the line touches a deep layer of the Brazilian experience: the road as both a material infrastructure and an imaginary landscape through which the country narrates itself. In Brazil, filetagem or filetes refers to the hand-painted ornamentation applied to truck bodies. Although increasingly rare today, these adornments can still be found in certain regions—particularly in the countryside—forming part of the dense graphic universe that once animated Brazilian highways.

The presence of these images reached its height in the 1950s, closely linked to the traditions of popular lettering. Within the context of truck-body workshops and factories, filetagem was not conceived as a mere decorative flourish, but as an integral stage in the manufacturing process of wooden structures. Since the 1990s, however, this craft has gradually been displaced by industrial automation, which privileges standardized finishes, often replaced altogether by adhesive decals.

It is against this horizon of disappearance that the gesture of Thiago Nevs emerges in the exhibition “A estrada que mora na madeira.” Drawing from iconographic research that extends beyond Brazilian territory, the artist articulates a visual language rooted in the craft of filetadores and abridores de letra, expanding it across multiple planes, supports, techniques, and materials. In doing so, he invites us to reconsider ornament not as a gratuitous embellishment, but as a visual system capable of condensing subjective expression, complex stylistic elaboration, and symbolic dispute.

At first glance, Nevs’s images evoke the rigor of traditional filetes, adhering to what the art historian E. H. Gombrich described as a “sense of order.” Repetition, symmetry, grouping, and the framing of forms organize the pictorial surface. Yet the vitality of ornament lies precisely in its controlled complexity. The fascination of the filete emerges through subtle variation: flourishes, micro-differences, and rhythmic deviations produced by the virtuosity of the brush. Thiago Nevs activates this tradition while combining it with spray paint—an inheritance from his trajectory in pixação and graffiti.

In “VUC,” an acronym for Veículo Urbano de Carga (Urban Cargo Vehicle), the filetes structure the entire field of the canvas. They unfold from the frame and its friezes into the internal pictorial space, reorganizing themselves into spirals, circles, and floral motifs. A vibrant palette—punctuated by the density of black—produces an immersive chromatic field reminiscent of Peruvian filetagem. Something similar unfolds in “Carga Leve,” another work in the exhibition, which explores the near-infinite formal possibilities generated from the basic structure of the filete.

In “Paz Interior,” new elements emerge. At the center, a framed illustration depicts an idyllic coastal landscape, where sky and sea dissolve into gradients of saturated color, echoing the visual language of the postcard. Above and below, a blue sign bears the phrase that gives the work its title, while two headlamp lanterns flank the composition. Here, not only ornament but also illustration, lettering, and fragments of the truck itself submit to the same constructive logic that organizes the image.

Within the culture of the roads, painted landscapes, aphoristic phrases, biblical verses, and popular sayings form a repertoire through which drivers articulate desire, faith, affection, and belonging. Nevs’s act of “reassembly” pays homage to these workers—figures with whom he maintains a deep affective identification—while subtly unsettling the architecture of exhibition spaces, often structured by aesthetic values that reject ornament and excess, themselves historically mobilized as markers of social distinction.

In “Longarina,” Thiago Nevs proposes a radical reflection on the craft processes involved in the fabrication of truck bodies. Rather than inserting ornamental elements onto a neutral surface, the structural materials of the truck become the support itself. Through the technique of marquetry, the artist constructs his compositions using cuts and textures from truck-body wood, juxtaposed with copper and silver leaf, while maintaining the painted enamel ornamentation. In this sense, a proximity to the Bauhaus may be productive—not at the level of iconography, but in the shared understanding of craft, workshop practice, and technical experimentation as foundations for the construction of a visual language.

It is within this displacement that Nevs’s work gains particular force. By recovering graphic repertoires associated with trucks, wooden bodies, and the visual culture of the roads, the artist does not operate under the sign of nostalgia, nor does he attempt to restore intact a disappearing world. Instead, he reinscribes this vocabulary in the present, shifting it from a utilitarian function into the domain of visual thought. The filete thus ceases to function merely as decorative finish and begins to assert its historical, technical, and symbolic density.

This operation also touches upon the ways Brazil imagines and recognizes itself. The road, the truck body, painted wood, lettering, and landscape condense experiences of circulation, labor, desire, and popular invention that have shaped the country’s cultural history throughout the twentieth century. By bringing these elements into the exhibition space, Thiago Nevs expands the field of painting while repositioning forms of knowledge often relegated to the margins of art’s legitimizing narratives. His work reminds us that formal sophistication is not the exclusive domain of erudite circuits, and that the intelligence of ornament can emerge—no less complex—from the practices of popular craft.

“A estrada que mora na madeira” offers more than a constellation of works structured by a shared iconographic repertoire. The exhibition unfolds as a reflection on permanence, displacement, and transformation. Between the softness of the pictorial gesture and the rigidity of structure, between the memory of the truck and the reinvention of matter, Thiago Nevs transforms filetagem into something other than a residue of the past: a living language capable of reorganizing our gaze upon painting, ornament, and the images that continue—quietly yet persistently—to traverse the Brazilian experience.

Uriel Bezerra




[1] BUARQUE, Chico; MENESCAL, Roberto. “Bye bye, Brasil”. In: Vida, Chico Buarque, 1980.
[2] GOMBRICH, E. H. O sentido de ordem: um estudo sobre a psicologia da arte decorativa. Porto Alegre: Bookman, 2012.








Paz interior
Thiago Nevs

esmalte e acrílica em spray sobre madeira com instalação elétrica de lanterna bate-pé
[enamel and acrylic spray paint on wood with electrical installation and “bate-pé” lights]
80x164x9cm
2024

R$ 19.000

VUC
Thiago Nevs

esmalte e spray sobre madeira  
[enamel and spray paint on wood]
100x80cm
2024

R$ 13.000

série Carga leve
Thiago Nevs

esmalte e acrílica em spray sobre madeira
[enamel and spray paint on wood]
60x40cm
2022

R$ 6.000

série Longarina
Thiago Nevs

marchetaria, esmalte e folhas de ouro, prata e cobre sobre madeira
[marquetry, enamel and gold, silver and copper leaf on wood]
84x79cm
2024

R$ 15.000

série Longarina
Thiago Nevs

marchetaria e esmalte sobre madeira
[marquetry and enamel on wood]
40x40cm
2025

R$ 6.000

BR-101, da série Ponto Chapa
Thiago Nevs

esmalte e tinta acrílica em spray sobre madeira
[enamel and acrylic spray paint on wood]
30x32x30cm
2026

R$ 13.000

BR-101, da série Ponto Chapa
Thiago Nevs

esmalte e tinta acrílica em spray sobre madeira
[enamel and acrylic spray paint on wood]
20x22x20cm
2026


BR-116, da série Ponto Chapa
Thiago Nevs

marchetaria, esmalte e folhas de ouro, prata e cobre sobre madeira
[marquetry, enamel and gold, silver and copper leaf on wood]
30x32x30cm
2026

R$ 15.000

BR-116, da série Ponto Chapa
Thiago Nevs

marchetaria, esmalte e folhas de ouro, prata e cobre sobre madeira
[marquetry, enamel and gold, silver and copper leaf on wood]
20x22x20cm
2026

R$ 7.500





THIAGO NEVS

(São Paulo, 1985)

Crescido na periferia de São Paulo, Thiago Nevs se interessa pelas vivências de indivíduos historicamente colocados à margem dos sistemas de poder hegemônico. Em sua prática, olha para memória, cotidiano, cultura popular e resistência, enquanto sua pesquisa se desdobra na produção de objetos, esculturas, instalações, pinturas e murais, com forte influência da pixação e do graffiti.

Projetos selecionados incluem três exposições individuais: SOBRE-CARGA (Galeria Luis Maluf, São Paulo, 2022), Panorama (Chocolate Notebooks, São Paulo, 2021) e Invólucro (Casa Sinlogo, São Paulo, 2017). Apresentou obras no Programa de Exposições do MARP em 2023, nas coletivas, OLÉ (Museum of Graffiti, Miami, 2022) e Balbúrdia (Galeria Underdogs, Lisboa, 2019) em Portugal. Participou da 15a Bienal Naïfs do Brasil: Ideias para adiar o fim da arte (SESC Piracicaba, 2020), na qual recebeu a Menção Especial do júri composto por Ana Avelar, Renata Felinto e Nilva Luz, por sua obra Alma da Estrada.

THIAGO NEVS

(São Paulo, 1985)

Raised in the outskirts of São Paulo, Thiago Nevs is interested in the experiences of individuals historically marginalized by hegemonic power systems. In his practice, he looks at memory, daily life, popular culture, and resistance, while his research unfolds in the production of objects, sculptures, installations, paintings, and murals, with a strong influence from pixação (Brazilian graffiti) and graffiti.

Selected projects include three solo exhibitions: SOBRE-CARGA ( Galeria Luis Maluf, São Paulo, 2022), Panorama (Chocolate Notebooks, São Paulo, 2021), and Invólucro (Casa Sinlogo, São Paulo, 2017). He presented works in the Programa de Exposições do MARP in 2023, and in the group exhibitions OLÉ (Museum of Graffiti, Miami, 2022) and Balbúrdia (Galeria Underdogs, Lisbon, 2019) in Portugal. He also participated in the 15th Bienal Naïfs do Brasil: Ideias para adiar o fim da arte (SESC Piracicaba, 2020), where he received a Special Mention from the jury composed of Ana Avelar, Renata Felinto, and Nilva Luz, for his work Alma da Estrada.


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