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Brígida Campbell

Belo Horizonte, 1981
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︎UM ANIMAL QUE INVENTA A SI PRÓPRIO
Brígida Campbell é artista e professora do curso de graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFMG. Doutora em Artes Visuais pela ECA-USP e mestre pela EBA-UFMG.

Em sua poética transita por diversas linguagens artísticas, como a pintura, o desenho, a instalação, o vídeo, as intervenções urbanas e as artes gráficas. Em seus trabalhos artísticos explora as sutilezas poéticas do cotidiano criando imagens e/ou situações que estimulam o imaginário e a criação.

Pesquisadora das relações entre arte e esfera pública. É colaboradora do EXA - Espaço Experimental de Arte, em Belo Horizonte, e fez parte do Poro, dupla com qual realizou trabalhos coletivos entre 2002-2016. Como artista já participou de diversas exposições no Brasil e no exterior.

Foi curadora dos projeto “Muros - Territórios Compartilhados”, Organizadora da SEMANÁRIA - Semana de Arte Gráficas - evento anual da EBA_UFMG. Autora do livro “Arte para uma cidade sensível”, resultado da “Bolsa de Estímulo a Produção em Artes Visuais da Funarte”; “Pequeno Guia Afetivo da Comida de Rua de Salvador”; “Exercício para a Liberdade” e “Intervalo Respiro Pequenos Deslocamentos - ações poéticas do Poro” - premiado no Prêmio Publicações de Arte Contemporânea em em Língua Estrangeira” – da Fundação Bienal de São Paulo e Ministério da Cultura.

Sua tese de doutorado ganhou Menção Honrosa no Concurso Teses Destaques da USP - 2020 na área de Linguistica, Letras e Arte.
Brígida Campbell is a visual artist and professor at Escola de Belas Artes, UFMG. PhD in Arts by ECA-USP and with a master’s degree by EBA-UFMG. 

In her poetics, Brígida moves through different artistic languages, such as painting, drawing, installation, video, urban interventions and graphic arts. In her works she explores the poetic subtleties of everyday life by creating images and/or situations that stimulate the imagination and creation.

Researcher of the relations between art and the public sphere. Collaborates with EXA - Espaço Experimental de Arte, in Belo Horizonte, and was part of Poro, a duo with which she created colective works from 2002 to 2016. As artist, she has participated at many exhibitions in Brazil and abroad.

As a curator she worked on the project  “Muros - Territórios Compartilhados”, and organized  SEMANÁRIA - Semana de Arte Gráficas - an annual event at EBA-UFMG. Author of the book  “Arte para uma cidade sensível”, result of the warded “Bolsa de Estímulo a Produção em Artes Visuais da Funarte”; “Pequeno Guia Afetivo da Comida de Rua de Salvador”; “Exercício para a Liberdade” e “Intervalo Respiro Pequenos Deslocamentos - ações poética do Poro” - awarded at Prêmio Publicações de Arte Contemporânea em em Língua Estrangeira” – from Fundação Bienal de São Paulo e Ministério da Cultura.

Her doctoral thesis was awarded an Honorable Mention at  Concurso Teses Destaques da USP - 2020 in the field of Linguistics, Literature and Art.

um animal que inventa a si próprio

O animal tem memória, mas nenhuma recordação[1].
Heymann Steinthal.

Na Biblioteca Ambrosiana de Milão, nos conta Giorgio Agamben[2], há uma Bíblia Hebraica do século XIII ilustrada com belas miniaturas. Na última página, representa-se o banquete messiânico, onde os justos se deliciam com a carne dos animais escatológicos. Mas, para nossa surpresa, o miniaturista medieval representa todos os homens com cabeça de animal. O filósofo postula que no reino messiânico a natureza animal seria transfigurada, de acordo com a profecia de Isaías:

Morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo se deitará com o cabrito, e o bezerro e o leão viverão juntos, e um menino os guiará.[3]

Provavelmente, o artista desconhecido que iluminou o Antigo Testamento da Ambrosiana pensava que as relações entre os animais e os homens teriam, no final dos tempos, uma nova forma. O homem, então, haveria de se reconciliar com sua natureza animal.

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Vi, pela primeira vez, as pinturas de Brígida Campbell no Instagram. Foram demasiados meses de solidão e raiva durante o isolamento imposto pela pandemia. Mas um dia, apareceram na tela imagens que traziam uma promessa de felicidade. Magentas intensos, rosas audazes, laranjas vibrantes, cálidos amarelos, turquesas brilhantes, dourados... Neste inverno de desassossego brotara a possibilidade de um verão quase esquecido. Evoquei Matisse, doente, trancado por ordens do comando alemão, na sua casa em Nice, fazendo os seus magníficos guaches recortados. Não porque houvesse alguma proximidade entre um trabalho e outro, mas pela aposta na restauração do mundo e da vida.

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A exposição leva por título "um animal que inventa a si próprio". A enigmática frase encaminha para uma reflexão sobre a animalidade que há em nós, sempre esquivada ou oculta. Na linguagem popular, e ainda na política, existe uma tendência a diminuir o humano a partir da animalização: o homem-macaco, o menino selvagem, o homem fera. Na modernidade, o judeu, o escravo, o negro, o índio, o bárbaro, o migrante, o estrangeiro aparecem como figuras animalescas com formas humanas[4], o não-homem é desqualificado através da humanização do animal.

Mas, como um animal pode-se inventar a si mesmo? Quando deixa de ser metáfora do humano ou de virtudes ou defeitos humanos? Quando deixa de ser uma fera? Quando é um animal em si mesmo e não um substituto do humano, porém mais dócil, menor, menos demandante, muito menos necessitado?

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Nestas pinturas, nestes desenhos, os animais – pássaros, sem dúvida, mas também cachorros ou lobos, aparecem, silenciosos, brancos, quase transparentes, feitos de traços delicados, de aguadas translúcidas. Flutuam num espaço que é, ao mesmo tempo, sólido como um muro e impalpável como um céu.

Um espaço celestial, rabiscado por signos, plantas delicadas, manchas,  estrelas,  borrões, figuras geométricas, um céu que tem as cores que aparecem naquele limiar que sucede ao crepúsculo ou que antecede as primeira horas do dia, o céu do princípio ou do fim da luz, onde os amarelos se transformam em alaranjados ou os rosas em morados.

Um muro igualmente tocado pelos primeiros ou os últimos raios do sol, onde Brígida – artista urbana desde o princípio – , grafita, grava, picha, rabisca, desenha, pinta. Um muro como palimpsesto que deixa ver uma duas, três, múltiplas camadas de traços, superfícies, riscos, desenhos serigrafados, aguadas...

A pintura plana explora a infinita riqueza das superfícies, sem desejar profundidades falidas nem transcendências retóricas. Pura pintura como queria Clarice: tinta sobre a tela, o cheiro do material e o barulho áspero do pincel raspando o suporte. Um corpo recluso se entrega aos gestos largos sobre o suporte pictórico ou aos pequenos e precisos  sobre o papel.

Os desenhos, mais delicados, deixam ver figuras humanas diminutas, poucos animais, árvores e signos gráficos que se agrupam em um setor da folha deixando grandes espaços vazios. Comungam do mesmo espírito das pinturas, se abrem porém a dimensões mais extensas e mais íntimas.

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Por força do hábito busquei uma genealogia para as pinturas (os desenhos são mais próximos dos trabalhos de Brígida que conheço faz tempo), mas fora de suas referências ao grafite e a pichação foi difícil encontrá-la. Viram a mim as delicadas aquarelas de Julius Bissier, as belas aguadas de Helen Frankenthaler, os riscos e rabiscos de Cy Twombly, mas são somente aproximações mais ou menos distantes que provém de uma memória de imagens não atualizada.

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Entre 2003 e 2004, os integrantes do Grupo Poro, entre eles, Brígida Campbell, realizaram uma intervenção urbana durante a qual colavam adesivos fluorescentes em locais sem cor. O título do trabalho era: ,Imagem… cor.

Nas cidades, onde as ruas, os passeios, os muros, os postes, as grades e até os carros eram de um cinza multiforme e monótono, os jovens artistas inseriram quadrados de papel colorido com a palavra COR. A paisagem urbana mudava com esses destelhos, nem que fosse até as próximas chuvas.

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A questão permanece. Quem é esse animal que se inventa a si próprio? A frase impregna de enigmas, desenhos e pinturas. Voltamos a miniatura da Bíblia Hebraica, será que se acerca o fim dos tempos e que nos estamos reconciliando com nossa animalidade?

Desde 2020, a rua tornou-se perigosa, intransitável, (talvez já o era antes, mas estávamos sob outras as ameaças), nós mesmos nos tornamos perigosos transmissores de um vírus incurável. Nosso presente tem se tornado a pior das distopias. E então, Brígida Campbell começa a pintar e suas telas nos arrastam para esse mundo quente e colorido, aconchegante e luminoso, por onde transitam signos, símbolos, e bestas translúcidas, um mundo que quase estávamos esquecendo.

Maria Angélica Melendi para a exposição Um animal que inventa a si próprio, 2021


[1] STEINTHAL Heymann. Apud AGAMBEN, Giorgio. Lo abierto. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2002. p.87
[2] AGAMBEN, 2002. p. 9 a 12.
[3] Isaías 11:6-10 ARC
[4] AGAMBEN, 2002. p.76.

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