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“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.”
Clarice Lispector


Estudos para coreografia sem o uso da cabeça apresenta pinturas e desenhos que fazem parte da série Estudos de Anatomia da artista Vânia Medeiros. Iniciada em 2021, essa investigação se aproxima do corpo e seus movimentos, de dentro para fora, permitindo experimentações e escutas para novos limites e contornos que ampliam as percepções possíveis do corpo como território.

A artista se dedicou a uma longa investigação sobre cartografias e mapas subjetivos, pensando sobre o deslocamento urbano e o desenho como ferramenta. A partir da escuta da paisagem surge uma nova camada que agrega à sua pesquisa: a consideração do sujeito enquanto território. Ao entender o corpo como instituição territorial, Vânia Medeiros inicia o mapeamento físico.

"Estudos de anatomia 1: Respiração" foi a primeira tela da série que parte de um exercício de reconhecimento dos órgãos da respiração, experienciados em uma prática corporal que conectou a artista à imagem do corpo. Vemos pulmões, coração, costelas, conectados por linhas pontilhadas, um corpo expandido, rizomático e atravessado por conexões. Nesse estudo, o corpo se apresenta como construção ficcional a partir da imaginação meditativa, dos órgãos e de como nossos espaços internos se conectam. 

Dobras, posturas, toques, ossos, sustentações, músculos, órgãos, fluídos, líquidos, nervos, células, são alguns dos elementos perceptíveis nas obras em exposição. Produzidas a partir de mergulhos em atlas anatômicos e geográficos que nos permitem relacionar os caminhos internos do corpo humano aos caminhos da terra, das formações rochosas, dos rios e das montanhas. O singular e o coletivo se fundem e se misturam.

Em “Circuito” seguimos o pensamento sobre a respiração e chegamos no coração, as veias e cavidades se assemelham à rotas fluviais e afluentes. A obra é desenvolvida em pastel a óleo que retoma a gestualidade do desenho na pintura sobre papel.

Numa aproximação da percepção anatômica com a cartografia afetiva dos territórios, a artista compreende que a paisagem é corporal, nós somos lugares e nos afetamos dessa forma. Através de experiências pessoais e ferramentas simples como o desenhar e o caminhar iremos tratar de temas essenciais da relação do corpo no espaço e do corpo como espaço.

Nos dípticos “Exercícios para construção de ferramentas” podemos avaliar estruturas ósseas em um desenho fragmentado e fraturado. A artista joga com as formas estruturais do corpo ao recriá-las e reconhecê-las. Nessas obras vemos os ossos do cóccix e omoplata, estruturas que nos sustentam, nos mantém de pé e raramente temos familiaridade ou reconhecemos sua posição em nossos próprios corpos. Levantando questionamentos como; O que nos sustenta? O que nos afasta da nossa estrutura interna?

Todos vivemos uma busca por lugares onde possamos aterrar nosso ser. Em uma construção geopolítica em que os corpos não têm liberdade de deslocamento pleno nos questionamos sobre pertencimento e habitação. A relação entre sonho e memória, entre cabeça e corpo, entre pessoa e terra, se fundem em um exercício de autoconsciência. Por isso, a série homônima ao título da exposição, “Estudos para coreografia sem o uso da cabeça”, nos mostra o corpo fragmentado, em diversas posições, sem o uso da cabeça. Partes do corpo que se movimentam e saem das estruturas normativas. Ao conhecer o corpo podemos ampliar as formas de ser. A coreografia e o movimento.

A teórica Donna Harraway desenvolve sobre a temática do corpo, espaço e identidade e relata que “A subjetividade humana é, hoje, mais do que nunca, uma construção em ruínas.” Os corpos presentes nos desenhos de Vânia Medeiros são fragmentados, interrompidos, cortados, seja pela estrutura dos desenhos, seja pela implosão dos contornos do papel. Fazendo referência à literatura de quadrinhos temos também a obra “Totem”, recompondo as entranhas das partes do corpo em escala humana.

O corpo não é uma entidade completa, mas parte de um todo, um fractal que se desdobra e revela o pouco conhecimento que temos sobre nós mesmos. Somos capazes de reconhecer estruturas externas com mais facilidade do que o nosso próprio universo interior. Não há início nem fim, somos meio. Sempre houve.

Catarina Duncan


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