ARTISTAS        EXPOSIÇÕES        FEIRAS        PUBLICAÇÕES        PROJETOS        INFO        LOJA

 




Arquitetura Espiritual


Em diversas culturas, a ideia de “Templo” tem a ver com edificação erigida em reverência a uma ou mais divindades. No Viewing Room da Galeria RV dedicado à Pedro Marighella, esse significado se amplia: embora não levante paredes, o artista instaura a dramaturgia de um espaço em honra a deuses e deusas que estão vivos e, além disso, dançam.

Nascido em Salvador, Bahia, Pedro formou-se em Artes Plásticas e desenvolve projetos na área de criação em design, ilustração, música e cenografia. Envolveu-se no cenário de arte contemporânea no início dos anos 2000, seja por meio de suas pesquisas individuais, ou logo depois por sua atuação no grupo GIA (Grupo de Interferência Ambiental), entre os anos de 2003 e 2009. Em uma rápida busca, o seu nome é associado a desenhos em marcador azul, onde retrata o encontro denso das multidões em festas e outros eventos de rua.

No conjunto apresentado nesta sala, resultado de uma prática desenvolvida nos últimos três anos, destaca-se o tríptico produzido no contexto da 7ª edição do Prêmio Marcantônio Vilaça. Penduradas desde o teto, três lonas tremulam solenes e abrigam figuras humanas em suas bases. As faixas laterais são ocupadas por dois homens e o centro por uma mulher, cuja desenvoltura sugere dança.

Integrados a uma tendência global, o grupo Ballet Puro Swing filma e publica na web vídeos de coreografias desenvolvidas para músicas de pagode baiano. Em parceria com os dançarinos João Vitor, Adriano Barbosa e Acácia Oliveira, Pedro iniciou o processo no qual capturou frames de seus passos e, com o marcador, percorreu seus corpos projetados digitalmente sobre a superfície dos tecidos.

Desse modo, em primeira instância o trabalho de Marighella não parte do desenho, mas da fotografia. Desde o projeto Mata, ele utiliza a fotografia digital e a edição computadorizada como fonte para as suas composições gráficas. Segundo o historiador e crítico de arte Roberto Conduru, “usando alguns padrões abstratos e decorativos gerados por fotografias, ele retrata grupos brincando e às vezes em conflito para condensar graficamente a energia que a multidão pode produzir em eventos festivos e outras situações (tradução nossa)” 1 .

No caso específico de Templo, a energia expressada em tela troca a intensidade das grandes aglomerações pela solitude quase monástica dos dançarinos, ressaltando gestos, olhares e movimentos no entorno vazio. Assim, para longe de qualquer registro antropológico presente no campo das artes visuais, a dança associada ao pagode baiano é imaginada como atividade mística, gerando aquilo que o artista chama de “arquitetura espiritual”. De acordo com essa ideia, as coreografias desorganizam e reorganizam no corpo as tramas da vida ordinária nas grandes metrópoles brasileiras 2, sobretudo Salvador.

Voltando ao tríptico, se fitarmos com um pouco mais de atenção a figura do meio, notamos que a dançarina, diferente de seus dois parceiros, devolve o olhar para o público enquanto os indicadores estão em riste. A imagem não é um duplo daquelas que já circulam nas redes, tampouco faz da dança mais uma representação política ou social, mas intima a quem olha: e você, acredita nesses passos?

Uriel Bezerra

[1]CONDURU, Roberto. Confronting the World with Art, Beauty, and Axé. In.: POLK, Patrick A.; CONDURU, Roberto; GLEDHILL, Sabrina & JOHNSON, Randal (org.). Axé Bahia: The Power of Art in an Afro-Brazilian Metropolis. Fowler Museum .2018, p.247.
[2]Ver LEPECKI, André. Exhausting Dance: Performance and the Politics of Movement. London/New York: Routledge, 2006.



︎      ︎     ︎