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7 verões ou o sorriso de quem trabalha

Tarcisio Almeida

1. Prazer

Fazem exatos 7 verões, ou melhor, fazem exatos cinco verões que nos encontramos. E aqui, parece importante recuperar algumas das apostas que guiam os nossos encontros, pois elas conduzem não só um modo de compreensão do nosso trabalho, mas funcionam como espaço ético na direção de um corpo que sabe e sente. Os cinco verões a que me refiro dizem, sobretudo, da presença do artista Marcos da Matta no programa de formação para jovens artistas Práticas Desobedientes [1]. Nessa duração, o interesse pelas relações com o trabalho, fio condutor da poética desenvolvida pelo artista, se entrecruzam também com o modo como entendemos nosso próprio trabalho em arte, sendo ele um compromisso íntimo e nada simples de enfrentamento na linguagem: uma possibilidade de acesso ao redesenho material do real.

Ao partirmos da linguagem, se por um momento pudermos suspender as expectativas já organizadas em torno das suas imagens, caberia formular a pergunta: Como a linguagem pode ser um operador de trabalho que desestabiliza a repetição de violências quando passa a responder à intensidade das coisas e não mais à representação do mundo? Nessa esteira, vale recuperar o sentido de transgressão que o pensamento de bell hooks [2] articula para descrever certos processos de aprendizagem que compreendem e incluem outras ferramentas/saberes de ser e estar, ou seja, de produzir subjetividade. Se pudermos ampliar nosso campo trazendo à cena os próprios processos de criação em arte a partir dessa perspectiva, o espaço de tensão provocado pela transgressão da linguagem se dá no momento em que seu caráter emancipatório nos permite desabar lugares conhecidos que são, em sua maioria, mediados pelo senso comum da gestão da violência, ao operar construções, sensibilidades e narrativas que visam não só (re)posicionar nossos imaginários e sentidos, como também fazer vazar sob o real um antídoto ao medo da própria liberdade.

A liberdade, nesse caso, não evoca o seu sentido liberal pautado nos princípios de justiça e igualdade[3], mas naquilo que Jamile Cazumbá, artista que também integra o nosso programa, nos relembra à medida que desenvolve a audácia do prazer como agente poético investigativo [4]. Desde esse lugar (ou dessa experiência), Cazumbá articula o ato de viver como uma prática e um trabalho constante. Um habitar que requer um gesto que oscila entre a descaptura constante das operações de violência (trans)temporalmente direcionadas a corpos como os nossos, aqui na mostra apresentados em múltiplas camadas de rosa e azul, e a fissura no próprio dique dessa contenção sistêmica. A fissura, nesse caso, é o próprio prazer. Ou seja, uma espécie de ação, por vezes invisível, que permite ao corpo a capacidade de produzir vitalidade, estendendo seus limites a um horizonte de pura indefinição emancipadora.

2. Estratégia

A partir desses termos, talvez as cenas de sorriso performadas pelo artista em sua primeira exposição individual apresentada pela RV Cultura e Arte encontrem um caminho afiado. A celebração pelos sete anos do ventilador que generosamente arrefece as tardes quentes de Cachoeira, os olhos de admiração de quem constrói a própria casa e a destreza na criação de possibilidades que visam a garantia da vida (material e simbólica) são algumas das rotas que aparecem em obras como "Construção"(2022), e "Deus te acompanhe" (2024). Fortemente interessado pelas relações políticas que o trabalho informal ocupa nas espessuras sócio-históricas no Recôncavo da Bahia - território em que esta pesquisa é realizada - sem perder de vista a sua própria experiência como trabalhador, Marcos da Matta constroi um jogo visual que revela um exercício constante de síntese e multidão.

Síntese porque o que vem à cena é da ordem do fragmento, parte recortada de um todo, pedaço de uma ação que se prepara para acontecer no tempo-espaço. Quando? Ontem? Hoje? Amanhã?... Seriam elas apenas uma atualização constante daquilo que o artista exalta, esgarça e combate? As estratégias de composição que vão desde a recuperação de momentos vividos até o uso de fotomontagens nos espaços públicos da cidade são também protagonistas. Todas elas desde si e através de si sem que essa capacidade de síntese esteja associada a procedimentos de redução e simplificação. Ao atuar como personagem conceitual e performático, Marcos da Matta remonta o sentido de multidão ao arrastar consigo uma pluralidade de formas e existências que precisa encarnar para dar conta dos territórios que o constituem. As imagens são ambientadas dentro de casa e nas ruas, refletem aspectos íntimos, pessoais e também culturais e sociais, em relação com outros elementos como a arquitetura, por exemplo. Para desenvolver as obras antes eu crio cenas, em um exercício de me imaginar desenvolvendo essas diferentes atividades, vivenciando essas diferentes histórias, ou de deslocar tempos e espaços para criar uma realidade da qual eu sou observador e narrador, reflete o artista.

Ao nomear essa operação de trabalho como "sobrevivencialismo", a lente para as escolhas quase sempre acontece a partir dos detalhes, fazendo do olhar uma ferramenta de edição no ato de pintar, anunciando uma atenção ao seu próprio corpo como fruto desses encontros ao se pensar como integrante destes desafios entre tantas e tantos outros. Nos contextos criados, temos a possibilidade de espreitar o artista atravessar os caminhos desse dia-jornada oscilando entre momentos de saudade, alegria e desejo por futuridade. O modo como os instrumentos de trabalho se transmutam adquirindo novas funções comemoram a possibilidade de cantar o todo pela sua profusão de possibilidades, estratégia refinada de abolição diante das narrativas amplamente conhecidas, quase sempre (re)encenadas pelo viés da violência.

3. Rumo ao ∞

Alguns projetos como "Carregadores" (2024), Festa d’Ajuda n.1 (2024) e "Espelho"(2024) são construídos através de cenários deslocados ou nas narrativas aparentemente incompletas, esse duplo entre ficção e documentação traz à superfície das coisas tensões com as ditas "informalidades" desde a perspectiva do trabalhador. E o recurso da pintura como documento advoga a favor de uma imagem que não tem precedentes e que por isso não pode ser representada em sua completude. Assim, o que se convenciona chamar de informal é, na verdade, o descortinamento da operação mais formal da captura do trabalho pelo capital racial de modo transtemporal[5].

Ao mirar essa espessura através de uma ironia implícita, podemos aproximar a investigação do artista àquilo que o pensamento de Denise Ferreira da Silva nomeia como equações de valor[6].Privilegiando a violência, numa violação das separações impostas pelos pilares onto epistemológicos modernos, esta leitura das cenas de valor, a econômica e a ética, sustenta o argumento de que o capital global vive do valor total expropriado do trabalho escravo e das terras indígenas (...), no qual o uso da violência total permite a apropriação de valor total que entra diretamente na acumulação do capital.[7]

Ou seja, o processo intermitente de expropriação da força de trabalho infligido à negridade que se manifesta por sua acumulação negativa. Para alargar essa conceituação, a pensadora recorre a algumas formulações matemáticas. A equação do valor no trabalho livre é da seguinte forma: C (valor dos meios de produção) + V (valor do trabalho / salário) + SP (valor produzido pelo trabalho menos o valor dos trabalhadores / mais-valia) = valor da mercadoria.
Já a equação do valor pelo processo de expropriação da terra e do corpo pautado no sequestro ocorre da seguinte forma: C + V (valor do trabalhador) + S (valor produzido pelo trabalho) = valor da mercadoria. Nesta equação, a mais-valia é descartada e o trabalhador tem seu próprio valor como uma mercadoria / meio de produção. Isso garante um excesso retirado pelo proprietário que fundamenta a sua riqueza, da mesma forma que estrutura a defasagem econômica herdada através do tempo como dívida social, simbólica, jurídica e econômica.

Ainda que de modo breve, é o excedente da captura que resulta na "informalidade" enquanto uma das poucas formas de trabalho disponíveis. O conjunto de pinturas aqui apresentadas são, em seu limite radical, a possibilidade de criação de textos que desafiam os operadores de figuração do racial encenados pelas imagens contínuas de subordinação e precariedade (sobrevivência) através do trabalho: formas para lermos algumas das espessuras do "sobrevivencialismo".

As redes de solidariedade no contexto das festas fazem uso da ironia e da astúcia como ferramenta que deseja fissurar os limites do esperado. Esse empenho (trabalho) na prática artística por sua vez não é menos implicado e por isso não está apenas na chave de uma mera observação passiva. A trama de situações que Marcos desenvolve, desde uma vivência incorporada até as esferas de vulnerabilidade que o sujeito-artista marcado por essas composições também enfrenta, sublinham o lugar da ficção como resultado da soma: auto representação + imaginação. Ambas atuam como ferramenta de desprogramação dos limites instituídos na própria matéria. Utilizando o que chamo de Equação de Valor, descrevo a capacidade da negritude de desenredar o pensamento moderno sem reproduzir a violência hospedada no conhecimento e na cena do valor (...). Isto é, a categoria da negritude serve o universo ordenado da determinância, além da violência e das violações por ela autorizadas. Um guia para pensar, um método de estudo e socialidade ilimitada – a negritude enquanto matéria aponta para o ∞, um outro mundo: a saber, aquele que existe sem tempo e fora do espaço, na plenitude.[8]

Entender a si e aos nossos pares como trabalhadores não significa apenas um meio de expressão dessa performance, mas apontam para um conjunto de práticas e tecnologias sociais com as quais é possível realizar a vida e no mesmo momento produzir o espaço através e além do tempo.



[1]  ver mais em: https://www.praticasdesobedientes.com/
[2] ver mais em: hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo Martins Fontes, 2013.
[3] Ambas possibilidades impossíveis dentro da configuração de mundo a que temos acesso nesse momento.
[4] Ver mais em: BRANDÃO, L. de L. As Humanidades em face das Ciências; as Poéticas em face dos Métodos: provocações e desafios. Revista Brasileira de Pós-Graduação, [S. l.], v. 13, n. 31, 2017.
[5] A referência a transtemporalidade aqui toca diretamente na atualização do avatar exploratório como dispositivo de mais valia, legado colonial de precarização econômica amplamente direcionado às comunidades negras no Recôncavo da Bahia. A região, caracterizada pela potência incontestável das Culturas Negra é também um território edificado por profundas assimetrias sociais explicitadas nas relações de trabalho e no uso de "informalidade" como possibilidade de sobrevivência e autonomia. Do período escravocrata nos trabalhos nas canas de açúcar e fábricas de fumo nos séculos XVII e XVIII, até a descoberta e produção de petróleo na região no século XX, muitos desses marcadores tensionados entre as elites brancas e sua população majoritariamente negra se mantêm em franco curso.
[6] Ver mais em: FERREIRA DA SILVA, Denise. A dívida impagável. São Paulo: Oficina de Imaginação Política, Living Commons, 2019.
[7] op. cit. pp. 155-156.
[8] Ver mais em: FERREIRA DA SILVA, Denise.1 (life) ÷ 0 (blackness) = ∞ − ∞ or ∞ / ∞: On Matter Beyond the Equation of Value in e-flux journal no. 79, 2017.

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