Com quantos pontos se desfaz um rosto?

Flávia Bomfim
10/07 a 31/08/2019

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Release
A mostra individual resulta de uma pesquisa que, há mais de 10 anos, Flávia Bomfim tem desenvolvido, na investigação da temática do rosto em suas poéticas gráficas: o rosto humano, enquanto representação de variadas estruturas e normatividades, individuais e sociais. São cerca de 40 obras, de tamanhos e formatos diversificados, que utilizam da linguagem têxtil e da técnica do bordado, ponto de partida criativo da artista, junto a intervenções como remendos e fotografias em tecido.

Tudo começou com o mote “O rosto é um mapa”. Flávia se inspira na produção social do rosto, como um sistema semiótico de contrapontos entre muro-branco e buraco-negro. Como a ideia de rosto, em sua arquitetura determinada pela genética, mas modificada pela cultura, está relacionada com a criação e as reproduções de nós mesmos?

Um rosto sempre denuncia. Um olho sempre captura. Mas o que captura? Entender o que nosso olhar captura e interpreta em um outro rosto é justo o xis da questão: um outro olho? O seu piscar? Um sinal? Um tique? Uma cicatriz? Uma determinada angulação de uma ruga?
Um rosto é também um sistema de controle. O rosto do patriarcado, por exemplo. Os olhos do Big Brother, o panóptico de Foucault. O que devemos ser, mostrar e fazer. O rosto-Cristo, aquele branco, bom, homem, europeu. O que disso desvia é erro de fabricação, e pecado é nunca podermos alcançar este rosto não pervertido. Fadados à neurose, nunca chegamos lá.

E então Flávia Bomfim aponta essa submissão que nos toma inclusive o direito à face. Que se interrompam sacrifícios e ideais inalcançáveis. Decolonizar o rosto. Desfazer o rosto. Subverter os códigos que nos capturam, os algoritmos que nos “identificam” e “diagnosticam”. Romper memórias subjugadoras, fantasmas em ciclos de dor, e construir novas narrativas.

Desfazer o rosto é torná-lo imperceptível, inclassificável, indecifrável. Olhar sem pretender inferir, deixar a curiosidade instigar a investigação. Reconfigurar, hackear, modificar a mensagem. Viabilizar as inúmeras sinapses, novas imagens, novas respostas diante de tantas variações de rostos, novos rostos possíveis.



Texto
Buraco- negro Vácuo,
Desordem e multiplicação

Uma escrita de causação em um lugar de desestabilidade. Flávia borra todas as evidências, seu silencio é Ruidoso. Telepatia e confusão.
Para toda desordem a impossibilidade em não recorrer a estruturas primevas de expressão. Refazer a caverna, refazer o gozo, refazer as dores. Refazer a caça …
Iam a hunther.
Magia por associação.
A presa não é mais o bisão e sim o simbólico que foi roubado do feminino. Flávia restitui esse simbólico e devolve essa insônia. Escrita inversa e entrópica que foge das certezas e das falências.
Moira tríplice onde fluxo, desejo e corporeidade transformam-se numa tática prometeica de hackear a tela branca e macular o cânone ocidental patriarcal de identificação, linguagem e signo.
Repetir, multiplicar e costurar parecem ser as formas de evidenciar suas funções e contradições nessa via de desordenar aparatos estáveis e seguros desse olhar que busca confundir e des -identificar.
Aqui falamos de mulher aranha ( aracne ), mulher olho, mulher ovo. A multiplicidade da medusa aqui está no olhar e não no cabelo; o olhar que não congela ou petrifica, mas sim um olhar que diversifica a experiência.
ROUBO DE PODER SIMBóLICO
Multiplicar os olhos de quem vê, observa, controla, pune e goza.
CRIAR COM FUSãO
Fundir simbólicos nessa interface é também desfazê-los. E nesse plano de confundir e capturar surge uma gênese realizadora cujo rosto é posto como liquido, solido, gasoso … incapturável.
Um rosto caverna, cú, vulva, buraco negro. Um rosto que não é porta, É entrada. Não é saída, é vazio e desconhecido. Quero comer com os olhos. Quero lamber seus olhos. São 3 am olho pra tela do smart phone. O olho dela é desejante e me engana, me golpeia e me transforma.
Contemporânea, moderna ou popular … sem tempo.
Desconforto necessário para compreender uma humanidade rasurada e acidentada …. Gozante.

Marcelo Gandhi
artista visual


Mark

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