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Isabela Seifarth

Salvador, 1989
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Isabela Seifarth é arquiteta de formação, artista visual e atualmente é mestranda no programa de Artes Visuais da UFBA.

Sua pesquisa permeia o universo das tradições da Bahia e do Recôncavo Baiano, incluindo seus acervos materiais e imateriais, aproximando os elementos da cultura popular e seus lugares, criando narrativas transmitidas através da pintura.

Participou de exposições coletivas no Museu de Arte Moderna da Bahia, Museu Afrobrasileiro UFBA, Casa do Benin e Solar Ferrão. Projetos selecionados incluem o vídeo “Feira Livre”, premiado no SSA Mapping em 2018 e sua participação na residência Fluxos: acervos do Atlântico Sul, proposto pelo Intervalo - fórum de arte em 2019.

Isabela Seifarth is an architect by training, visual artist and is currently a master's student in the Visual Arts program at UFBA.

Her research permeates the universe of traditions of Bahia and Recôncavo Baiano, including its material and immaterial heritage, bringing together elements of popular culture and its places, creating narratives transmitted through painting.

She participated in group exhibitions at the Museu de Arte Moderna da Bahia, Museu Afrobrasileiro UFBA, Casa do Benin and Solar Ferrão. Selected projects include the video “Feira Livre”, awarded at the SSA Mapping in 2018 and a participation in the residency Fluxos: acervos do Atlântico Sul , proposed by Intervalo - fórum de arte in 2019.

Obras disponíveis




Isabela Seifarth é uma jovem artista que tem demonstrado grande entrega às complexidades do processo criativo. Já há alguns anos, desde que as vi pela primeira vez, suas pinturas mobilizam minha percepção estética. Creditar à sua formação pregressa em arquitetura o interesse pela paisagem urbana não dá conta de seu processo e investigações pessoais, impregnadas da vivência do cotidiano do recôncavo baiano, de onde a artista é originária, e de uma experiência muito pessoal da vida nas cidades. Destacam-se especialmente certas pinturas em que subverte a mimese, seja pelas narrativas plurissignificativas gerando leituras abertas, seja pelo uso de uma perspectiva sobre a paisagem urbana em que a escala monumental das cidades contrasta com a sutileza e vulnerabilidade evocadas pela inserção de delicadas figuras humanas.

As generosas metragens das “feiras, livres” de Isabela Seifarth me instigam agora a pensar sua pintura a partir das aproximações e afastamentos com uma certa linhagem baiana de pintores e muralistas que construíram narrativas às vezes épicas, expressando o fascínio com as singularidades da Bahia, às vezes críticas, burlesquas ou satíricas, às vezes exotizantes e/ou consolidadoras do imaginário idílico, bucólico e atemporal da “terra boa” com gente “mestiça, afável e indolente”. Uma linhagem que ganhou visibilidade e veio a ser aceita para os cânones da história e da crítica da arte, mas nem sempre abordou os traumas da colonização e as consequências perversas da nossa longa história de violência.

Para além do domínio técnico, eis entretanto na série de Bela sobre as feiras livres, a iminência de uma poética que experimenta procedimentos nas bordas difusas dos limites da representação, mas ancorada de algum modo pela persistência de um real às vezes poético, às vezes caótico, às vezes brutal. Poesia, caos e brutalidade irrompem na pintura numa lógica poética que envolve temporalidades emaranhadas e se descola da presunção de neutralidade, transparência ou objetividade ao decidir tratar também, reflexivamente, nossas feridas abertas, inclusive violências, silenciamentos, privilégios e hierarquias - a colonialidade que habitamos e nos habita.

Essa decisão transborda em algumas cenas que podem gerar desconforto diante da antiguidade e atualidade das violências representadas, e é vivenciada com a inquietação de uma artista que - num momento político extremamente tenso e antidemocrático - sente mais que nunca a urgência de colocar em questão o que - junto com uma polifonia de vozes e narrativas - sente ruir definitivamente diante de si: o mito do nosso país como o paraíso dos homens cordiais.

Rosa Bunchaft para a exposição Feira Livre, Galeria ACBEU, 2018


Na primeira sala, a obra “Boi-Mandioca”, de Bela Seifarth, devora qualquer um que entre naquele espaço. A ferocidade da obra desestabiliza qualquer passante que mire a estranheza desse quadro. É uma obra que traz a força de um Brasil-chão, pisado por bois andantes sobre terras onde nascem mandiocas. De perto parece que dois bichos estão muito vivos, junto a caranguejos e bananas, iluminados por um azul muito intenso que torna tudo muito mais vibrante. Captura-se, nessa obra, as forças ativas de um país que resiste pelo chão, pelas tocas. De repente, parece que vemos uma coisa só, que representa um certo devir-animal, devir-terra. Duas forças, duas grandezas juntas, que se retroalimentam para além das bordas de um país irreconhecível.

Rosana Junqueira para a exposição Abstrato/Abstrações, Galeria Cañizares, 2021


Na sala do Mafro que antecede a versão do panteão iorubano de Carybé, Isabela Seifarth apresentou as pinturas Totem a um museu afrobrasileiro I, II e III. Em cada tela um corpo negro anônimo equilibra sobre sua cabeça um conjunto de esculturas africanas encaixadas verticalmente que podem ser identificadas no acervo do Mafro e da casa do Benin, especialmente as máscaras geledé. O gesto de vestir a máscara é traduzido nas imagens em um jogo entre memória e esquecimento. A palavra totem geralmente remete ao agrupamento de símbolos sagrados que representam uma determinada coletividade, em torno do qual são produzidas narrativas que justificam a organização da vida social. Os totens propostos por Isabela agrupam esculturas e objetos de modo oposto às exposições permanentes do museu, onde se mantém separados e apoiados sobre expositores que sinalizam distanciamento, sacralidade e sua perenidade no tempo. Ao colocá-los sobre uma cabeça humana, remetendo ao uso das máscaras no contexto do Festival Geledé que ocorre anualmente nas aldeias Ketu- -Iorubá, a artista tensiona a monumentalidade proposta pela museografia, convidando a uma experiência livre da memória baseada na reminiscência. Assim, diante das imagens, resta ao visitante produzir as narrativas acerca de sua passagem no museu.

Em Acúmulos de um museu afro-brasileiro, animação em vídeo apresentada na Casa do Benin, na qual todas as esculturas e objetos de culto doados ao museu citados por ela em Totem a um museu afrobrasileiro I, II e III são vistos em uma sequência contínua, de baixo para cima, acompanhadas pelo som das vozes de visitantes ao fundo. Aqui, Isabela reitera a crítica ao museu na construção do olhar do público e vice-versa, o que desperta outras problemáticas, a saber: o quanto é possível guardar e exibir em um museu? Quantas Áfricas pode acumular um museu dedicado à arte africana e/ou afrobrasileira?

Uriel Bezerra para a exposição Nkaringana, Museu Afrobrasileiro, 2020

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