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Milena Ferreira
01/10 a 14/11/2020
Apresentação
O trabalho de Milena Ferreira parte de uma experiência muito particular com a cidade, com o centro histórico e com as dimensões sociais que a arquitetura consegue alcançar, sempre flertando com a ideia de memória, como se suas gravuras pudessem capturar não só o aspecto plástico daqueles lugares esquecidos mas garantir a permanência das narrativas criadas ali naquele abrigo.

“Quem um dia viveu naquela casa, continua morando ali para sempre, ainda que esteja em outra parte agora. Isso é possível porque a casa é construída pelo próprio trânsito de mudar-se para ela, vindo de outras casas, e deixá-la, partindo para outros lugares” (trecho do livro “O que é uma casa?” de Raiça Bomfim e Vânia Medeiros, Baobá Artes Impressas, 2012)

Poesia a parte, também há nestas gravuras um componente técnico que vem a calhar: não é só o desenho, entre linhas e pontos, construção da mão da artista o que se carrega para o papel, senão que a prensa também ali grava os vestígios do suporte usado na matriz - a ordinária caixa de Tetra Pak, as dobras e os rasgos, vestígios, porque não, de memória e de ruína.

Texto crítico
No campo gráfico, especificamente, nas técnicas tradicionais da gravura artística, temos várias possibilidades, na fertilidade do fazer, podemos seguir com a forma ensaiada e praticada nos diversos atos e modalidades do processo ou romper alguns limites, o gosto e busca pelo equilíbrio, observar com atenção todo o percurso de criação, acaba sendo uma meta para muitas pessoas.

Na pesquisa da artista gravadora Milena Ferreira, percebo esse rumo, no labor do ambiente gráfico, sua atenção aos questionamentos que surgem com a dinâmica do estúdio, sempre respeitando o espaço na prática e alcance de um método, uma forma de construção original e surpreendente em cada etapa. As suas “pequenas“ reflexões sobre o material, transformam a produção no máximo da sua exigência, na modelagem do seu conceito, algo que a gravadora busca com muita investigação e dedicação.

A sua influência no “modus” da nossa escola, a escola baiana da gravura, essa forma de se envolver com a máquina de impressão, fica evidente na mancha das suas estampas, a força da “gráfica” está presente, a marca no papel pesado, os seus ruídos, as construções e desconstruções (essas, sem dúvidas e rompendo com a dificuldade oferecido pela matéria), onde tudo se transforma em criação, em suas séries, em sua obra gráfica.

Evandro Sybine

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