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Rômolo D’Hipólito

Foz do Iguaçu, 1984
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Artista visual multimídia, Rômolo parte da noção de caderno de viagem como uma narrativa sobrea experiência de ir ao encontro do outro e de si mesmo.  Sua pesquisa perpassa as áreas da antropologia e da etnologia, e suas referências estéticas, motivadas pelo constante trânsito, reúne elementos centrais da arte latino americana, desde as cerâmicas pré - colombianas, passando pelo muralismo mexicano, até chegar na Antropofagia e Tropicália brasileiras.

Em seus diários gráficos ele capta a essência de cada paisagem e a transforma em uma biblioteca de texturas, objetos, formas e personagens, posteriormente rearranjados de diversas maneiras em composições que misturam desenho, pintura e colagem, e se materializam inclusive, e mais recentemente, em esculturas cerâmicas e obras têxteis. Neste contexto, Rômolo realizou residências em Hong Kong, Tailândia, Malásia, Japão, Hungria, Croácia, Itália, Espanha, Marrocos, México e Guatemala.

Exposições selecionadas incluem coletivas nos Museus daGravura e Municipal de Artes, ambos em Curitiba, uma participação na Elephant Parade, Tailândia, e mostras em galerias e feiras de arte no Brasil, em Portugal, nos EUA e na França. Em 2018 seus trabalhos foram selecionados para o 9º Catálogo Iberoamérica Ilustra e premiados pela Society for News Design. Em 2019 uma de suas obras da série Sísifos passa a fazer parte do acervo do Museu de Arte do Rio (MAR).
Multimedia artist, Rômolo’s starting point is the notion of taveling journals as a narrative about the experience of meeting others and getting to know yourself.  His research permeates areas of anthropology and ethnology, and his aesthetic references, motivated by constant displacement, brings together central elements of Latin American art, from pre-Columbian ceramics, passing through Mexican muralism, and reaching the Brazilian Anthropophagy and Tropicalia.

In his graphic diaries he captures the essence of each landscape and transforms it into a library of textures, objects, shapes and characters, later rearranged in different ways in compositions that mix drawing, painting and collage, and are even materialized, more recently, in ceramic sculptures and textile works. In that context, Rômolo did residencies at Hong Kong, Thailand, Malaysia, Japan, Hungary, Croatia, Italy, Spain, Morocco, Mexico and Guatemala.

Selected exhibitions include group shows at Museu da Gravura and Museu Municipal das Artes, both in Curitiba, a spot at Elephant Parede in Thailand, and other shows in galleries and art fairs in Brasil, Portugal, USA and France. In 2018 his works were selected for the 9th Iberoamérica Ilustra and awarded by Society for News Design. In 2019 one of his works from the serie Sísifos becomes part of Museu de Arte do Rio’s (MAR) collection.

Obras disponíveis







Pequeno retorno à terra

Em atenção as sutilezas da vida, Pequeno retorno à terra apresenta a recente produção artística de Rômolo D’Hipólito e compartilha conosco uma série de trabalhos que nascem das colheitas de suas vivências, sobretudo do período em que ele passou em Oaxaca, no México, nos anos de 2017, 2019 e 2020.

A fim de melhor compreender sua obra, antes é preciso mencionar que D’Hipólito nasceu em Foz do Iguaçu – tríplice fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai –, realizou residências em Hong Kong, Tailândia, Malásia, Japão, Hungria, Croácia, Itália, Espanha, Marrocos, México e Guatemala, deu a volta ao mundo e nos momentos de pouso habita a cidade de Curitiba. Ou seja, vive em constante deslocamento.

Sempre acompanhado de caneta nanquim preta e tinta guache colorida, o artista costuma desenhar em seus inúmeros cadernos de viagem tudo aquilo que o toca, o atravessa. É possível dizer que seus cadernos atuam como extensão de seu olhar, cumplices de vivencias e guardiões de memórias visuais, afetivas e particulares. Cadernos que, mesmo sem pretensão, preparam o terreno para suas gravuras, esculturas e peças em tecido.

Por sua condição nômade, é possível notar influências de diversas culturas em sua produção. Foi em Tisserdmine, no Marrocos, onde D’Hipólito aprendeu sobre a manufatura do tear, o preparo de pigmentos naturais e os significados dos padrões geométricos marroquinos, de modo a realizar trabalhos em tecido. Bem como foi em Tokyo, no Japão, onde se encantou pelos ideogramas japoneses, seus caracteres e estilo de escrita na vertical, passando a incorporar fragmentos de textos japoneses em suas obras e a assinar conforme um ideograma vertical.

Entretanto, a influência de Oaxaca se faz mais pulsante nas obras aqui presentes, muitas vezes determinantes na criação dos trabalhos. Foi nessa cidade onde ele teve contato com a tradicional cerâmica mexicana – observando o oficio das mulheres que produziam os artesanatos e os objetos utilitários em barro – e com a litogravura, uma vez que as pedras mexicanas de lito apresentam as mesmas propriedades químicas das pedras europeias.

Sobre os trabalhos em exposição, as cerâmicas e as peças em tecido foram produzidas em Curitiba, enquanto que as litogravuras foram realizadas em Oaxaca no ateliê público Rufino Tamayo e no ateliê Bambú do mestre Abraham Torres; onde o artista esteve em residência. Isto porque, o espaço e o tempo de cada meio é respeitado, assim como o cultivo das plantações.

Para além das múltiplas linguagens que dão corpo aos trabalhos aqui presentes, muitos dos conceitos que os abarcam também são inerentes a cultura mexicana. Nota-se a referência ao muralismo mexicano e aos assuntos  particularmente regionais como, por exemplo, a feitura do mescal com agave, a música popular dos Mariachis, as festividades religiosas, as feiras de rua, a influência da civilização Zapoteca, as frutas e as plantas endógenas.

E mesmo falando sobre alteridade, é preciso enfatizar que sua obra não se põe a serviço da construção do exótico e do monumental, pelo contrário, o respeito com as demais culturas e com a natureza, principalmente com os trabalhadores da terra, é o que faz sua produção ser tão potente. Não somente existe uma consciência do lugar de fala, como também uma reverência ao local, como se sua obra homenageasse a pluralidade e a diversidade da vida.

Desta forma é possível dizer que mais do que “artista viajante” – a fim de romper com a ideia colonial do termo na História da Arte, o qual se refere as expedições artísticas e científicas coloniais das Américas no sec. XVI –, D’Hipólito é um artista “Terrestre”, tomando emprestado o conceito do antropólogo e filósofo francês Bruno Latour: Isso porque o Terrestre, estando vinculado à terra e ao solo, é também uma forma de mundificação, já que não se restringe a nenhuma fronteira e transborda todas as identidades. (Onde Aterrar, pag. 66, 2020)

Não é em vão que suas imagens estão repletas de mãos e pés agigantados, no desejo de plantá-los na terra e se conectar com o ambiente onde se encontram. Como que seus trabalhos buscassem nos despertar para uma conexão entre natureza e cultura, alertando-nos para a consciência de que estas são uma só. É com poesia que suas obras dizem o quanto urgente é cultivar a arte, o solo e todas as formas de vida.

Isto porque o Pequeno retorno à terra é uma exposição que vai ao encontro da produção artística e da história pessoal do artista, na medida em que ambas são intrínsecas. É deste modo, em meio a beleza das cores, traços, volumes e formas, que somos convidados a nos reconectarmos com a origem da existência: a terra.

Paula Borghi para o projeto expositivo “Pequeno retorno à terra”, 2021.

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