Zé de Rocha

Cruz das Almas, 1979
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Mestre pela Escola de Belas Artes da UFBA e artista multimídia, Zé de Rocha carrega em seu traço a violência e o risco, produzindo uma iconografia forte, direta e sem meandros herméticos. Já participou de mostras coletivas em inúmeras galerias do estado da Bahia e depois de ter ganhado o grande prêmio da IX Bienal do Recôncavo (2008), expôs seus trabalhos em Ghiffa, Itália. Em 2011 realizou a exposição "Correndo o Risco" para a qual produziu uma série de trabalhos com "espadas de fogo" incluindo o díptico "Prometeu e São João Brincando e Inquisição em Paisagem Cruzalmense", uma das três obras vencedoras do Salão de Artes Visuais de Jequié. Em 2013 participou da exposição coletiva Exquisópolis no Museu de Arte Moderna da Bahia e em 2014 intregrou a III Bienal da Bahia.

Master of Arts from Escola de Belas Artes of UFBA and multimedia artist, Zé de Rocha carries some violence and danger on his score, producing a strong, straightforward and forthright iconography. He's been part of a lot of group shows in different galleries throughout Bahia, e after he was awarded at IX Bienal do Recôncavo (2008) he exhibited his work in Ghiffa, Italy. In 2011 he did a show called "Correndo Risco" for which he produced paintings of fire, through the usage of a firework best known in Bahia as "espada de fogo" (fire sword), including the diptych "Prometeu e São João Brincando e Inquisição em Paisagem Cruzalmense", one of the three pieces awarded at Salão de Artes Visuais de Jequié. In 2013 was part of the exhibition "Exquisópolis", at MAM-BA and in 2014 integrated the III Biennial of Bahia.


Ensaio para bala perdida
serigrafia sobre tecido, impressão única
120x180cm (tríptico) | 2008
Obra ganhadora do grande prêmio da IX Bienal do Recôncavo


Prometeu e São João Brincando de Inquisição
em Paisagem Cruzalmense
lona queimada e fuligem
160x210cm (díptico) | 2011

Obra ganhadora do prêmio principal
do Salão de Artes Visuais de Jequié, 2012

Sangue Ígneo I
lona queimada e fuligem
210x160cm | 2011


Crítica

Desde que Zé de Rocha, jovem artista brasileiro nascido no estado da Bahia, recebeu o grande prêmio da IX Bienal do Recôncavo de 2008, desenvolveu-se em seu trabalho um tema que ele já havia capturado iconograficamente: trata-se daquela forma de violência que muitas vezes acompanha o cotidiano das grandes cidades. Naturalmente, não é apenas o tema escolhido que rende interesse ao seu trabalho, mas especialmente sua articulação interna que o torna único e praticamente exclusivo.
O processo de narração visual reúne em seu fazer muitas técnicas e línguas, isto significa antes de tudo que Zé de Rocha está situado na área da arte contemporânea recente que ativa a construção da imagem através de sua desconstrução narrativa. Na minha opinião, a sua prática assume a forma de uma história ou uma crônica do visto que separa a imagem do ruído dos gritos que parecem surgir na superfície.
A protagonista dessas crônicas é o próprio artista que, todavia, escapa da auto referência e sobretudo da armadilha fácil do autorretrato. O ego se divide e se triplica, se esconde e se mostra até a incapacidade de reconhecer-se. É o eu e o outro que, ao mesmo tempo, se autoproclamam protagonistas e comparsas dessas crônicas. Rimbaud recorre com frequência à memória e à elegância violenta e vívida dessas crônicas imaginárias do extremo.
O processo de organização da sua obra passa por várias linguagens para, finalmente, finalizar-se com a serigrafia, uma técnica de reprodução pouco em voga entre os jovens artistas, mas que conheceu no passado um grande resultado, sobretudo com a prática pop de Andy Warhol. Para Zé Rocha, tudo parte da fotografia. Em seguida entra em jogo o computador com seus programas de manipulação tecnológica das imagens e finda na reprodução serigráfica sobre tela negra, onde a retícula branca traça com elegância visual a violenta história do seu corpo.
É interessante refletir sobre um aspecto pouco empregado na atual produção artística, aquele da impossibilidade de representar ou representar-se através de imagens, que seduz sempre, como nos ensinou René Magritte. Zé de Rocha sabe muito bem disso e desconstrói a imagem de seu eu em outros porque ninguém é realmente o eu e todos são falsamente os outros.
Mas a violência de suas imagens é também o resultado de sua própria condição. Nós não assistimos a esta, mas ao seu resultado de figura solitária num espaço pictórico e psicológico que leva à refletir sobre a condição humana de nossa época, assim como fez Francis Bacon.
De todo esse processo, ativado e desativado ao mesmo tempo, é uma evidência visual o recente trabalho de Zé de Rocha.

Antonio D’Avossa, curador da IX Bienal do Recôncavo.